AS FORÇAS QUE MOVEM O AR QUE VOCÊ RESPIRA
O sistema respiratório tem várias funções no corpo, sendo a principal delas a troca gasosa e a homeostase. Esse sistema pode ser entendido como um conjunto de tubos e conexões que levam o ar até os capilares pulmonares onde são realizadas as trocas gasosas. Até aí tudo bem, é só uma revisão do que você aprendeu no ensino fundamental.
O que geralmente causa dificuldade na compreensão deste sistema é que esses tubos e conexões possuem propriedades elásticas, e que o sistema respiratório precisa se adaptar a diferentes pressões tanto dentro quanto fora do tórax e têm uma relação muito intrincada com outros órgãos e cavidades do corpo. Para entender melhor estas relações, estudamos a mecânica do sistema respiratório, que é basicamente composto pelo pulmão, vias aéreas e caixa torácica.
Vamos lá então, sem medo de fazer novas sinapses e botar os neurônios para trabalhar. Vamos tentar entender que mecânica é essa!
DEFINIÇÃO DE COMPLACÊNCIA PULMONAR
Toda estrutura elástica tem como propriedade fundamental oferecer resistência à deformação. O pulmão funciona de forma bem parecida. No caso, a capacidade que o pulmão tem de se expandir chama-se complacência.
Para expandir os pulmões é necessário um mínimo de esforço, que ocorre naturalmente, na atividade da respiração. Esse esforço é realizado pelo músculo diafragma e pelos músculos intercostais externos. Quando a capacidade de expandir está diminuída, diz-se que o pulmão tem a complacência reduzida, ou, em outras palavras, um pulmão com a complacência reduzida se expande com mais dificuldade, fica “duro”. A diminuição da complacência é particularmente perigosa, pois impõe um maior trabalho ao sistema respiratório para “abrir” os pulmões e “fazer o ar entrar”. Em uma situação aguda, o paciente pode evoluir rapidamente para a insuficiência respiratória, ou seja, o esforço muscular que ele realiza para respirar passa a não ser suficiente para expandir os pulmões e ele pode para de respirar. Em uma condição crônica, a insuficiência acontece do mesmo jeito (só que a prestação), e com o passar dos anos, o esforço também torna-se imenso dificultando a expansão pulmonar.
A definição clássica de complacência afirma que se trata de uma relação entre pressão e volume, ou seja, o quanto o pulmão é capaz de distender-se para acomodar o volume de ar que entra pelas vias aéreas.
É importante ter em mente que associada a variação dos volumes pulmonares ocorre também uma variação da pressão. Na faixa fisiológica normal de variação de pressão (- 5 a - 10 cmH2O) o pulmão é bem distensível, para cada variação de 1 cmH2O ocorre uma variação de 200ml de ar, porém se o pulmão já se encontra expandido, pequenas variações de volume, geram uma grande variação de pressão e impõe maior trabalho aos músculos inspiratórios.
Não entendeu? Faça o seguinte:
#1 – Respire normalmente e perceba o esforço que você faz ao iniciar a inspiração (pulmão em um momento de alta complacência – pequenas variações de pressão = grandes volumes)
#2 – Tente manter a mesma frequência respiratória, só que desta vez respire com o peito bem estufado de ar, sem deixar o ar sair completamente. Perceba como é mais difícil manter a mesma freqüência respiratória quando se está próximo do limite de expansão pulmonar (pulmão em momento de baixa complacência – fica cada vez mais difícil (trabalhoso) respirar (mesmo com pequena variação de volume).
#3 – Agora faça o contrário: solte quase todo o ar dos pulmões, segure só um pouco de ar e tente manter a mesma freqüência respiratória. Esse também é um momento de baixa complacência, se você mantiver isso por algum tempo algumas unidades alveolares entrarão em colapso. Esse outro extremo de volume pulmonar (volume muito baixo = complacência reduzida) também torna a respiração mais difícil.
Se você chegou nessa parte do post sem ter nenhuma das reações adversas citadas lá no início, as suas chances de ter um ataque de narcolepsia ou de começar a ver duendes verdes agora é mínima. Vamos em frente. Gráficos são amigos, e facilitam muito a nossa vida, vale a pena gastar um pouco mais de tempo analisando as curvas e suas relações.

Percebam que a curva do conjunto Pulmões+Tórax tende a ficar horizontal próxima ao VR, indicando uma complacência reduzida em baixos volumes (representa um volume pulmonar muito baixo, com vários alvéolos fechados que precisam receber uma pressão inicial para abrir e começar a insuflar.) e também tende a ficar horizontal próxima a CPT (hiperdistensão pulmonar - representa a distensão máxima, com todos os alvélos abertos. Não é possível distender muito o tecido). Nestas duas situações, é preciso uma grande variação de pressão para se obter pequenas variações de volume.
A fórmula matemática que rege essas forças é: Complacência = Volume / Pressão.
O que pode alterar a complacência?
A complacência pode estar reduzida, causando maior trabalho da respiração para distender todo o sistema e “fazer o ar entrar”. De forma geral, condições que, impeçam a expansão e retração pulmonar diminuem a complacência. São condições que produzem fibrose ou edema ou reduzem a parte funcionante dos pulmões, como atelectasias, derrames pleurais, ascites e escoliose.
Outras situações que diminuem a complacência incluem: congestão dos vasos pulmonares, processo inflamatório alveolar com presença de líquido dentro dos alvéolos (redução do surfactante).
A complacência pode estar aumentada em idosos ou em pessoas com enfisema pulmonar. Nestes casos, há perda de fibras elásticas, e uma vez expandido, o pulmão não volta à posição inicial. Nesse caso, o problema está na expiração, com a redução do recuo elástico, que torna mais difícil a saída de ar.
A mesma propriedade que faz o pulmão ser capaz de se distender na inspiração é a que o faz retornar ao seu tamanho (volume) normal na expiração. O tecido elástico armazena energia e, por isso, a expiração normal não necessita de nenhuma ação muscular. No paciente com enfisema podemos observar esse esforço para expulsar
Pois é pessoal, esta foi a primeira postagem colaborativa do blog. Obviamente
não esgota o assunto e nem substitui a leitura de um bom livro de fisiologia
respiratória, mas espero que seja útil e que ajude a compreender melhor este
assunto complexo.
Vida longa e próspera
26 comentários:
É como se estivesse apertado a tecla SAP.
Legal,dá pra entender o que acontece com paciente com DPOC.Agora falta explicar o uso da PEEP na forma de EPAP ou CPAP e PEP vs. a complacencia pulmonar
MUITO LEGAL, MAS NÃO ME APARECE O GRÁFICO
Adorei,agora conseguir compreender basicamente a complacência...por favor posta mais assuntos relacionados a fisiologia respiratória, da forma que vc explica fica bem fácil compreender. Valeu mesmo!!!
Muito bom,antes de ler essa explicação de vocês realmente tinha dificuldade, agora tá tudo bem mais claro. Obrigada!
Muito bom! Muito bem explicado, haha... finalmente consegui entender.
Descobri hoje pelo exame de ecocardio que estou com isso. Agora vou marcar c/ meu cardio p/ ver se morro por causa disso ou se morro com isso mesmo e como ele vai tratar. Obrigada, me esclareceu algumas dúvidas. Agora, as restantes só sentando e conversando c/ o médico mesmo. Abçs
Sou Enfermeira e estava precisando de uma explicação didática como a sua para entender a Complacência !!!Excelente!
bom o artigo mas gerou uma contradição, veja bem ""(hiperdistensão pulmonar - representa a distensão máxima, com todos os alvélos abertos. Não é possível distender muito o tecido)", ou seja, baixa complacencia. "A complacência pode estar aumentada em pessoas com enfisema pulmonar", oras, nao faz sentido, uma vez que, o enfisema causa a hiperinsuflação pulmonar, então, essa segunda afirmação é contraditoria a primeira supracitada não faz sentido.
NUM ´pRIMEIRO MOMENTO É DITO QUE O PULMÃO QUANTO MAIS PROXIMO DA SUA CPT MENOR SUA COMPLACENCIA, NOP SEGUNDO MOMENTO É DITO QUE O ENFISEMA POE ESSE PULMÃO HIPERINSUFLADO E ASSIM SUA COMPLACENCIA ENCONTRA-SE AUMENTADA, NAO FEZ SENTIDO
Gostei e entendi! :)
Nossa, clareou minha mente! Muito obrigada!!
muitissimo obrigada!
Amei! Foi útil e divertido.. Acho que curei . Kkk. Aguardando novas postagens. Obrigada.
Bom dia. Estou vendo a formula de complacência pulmonar no site de medicina intensiva e esta diferente da sua ( volume inspirado : pressão de pico) - PEEP. Por que a diferença? Obrigado.
Bom dia. O que foi escrito aqui eu já sabia, mas gostaria de saber como eu avalio a mecânica respiratória. Tipo chego na frente do ventilador e faço o que? cálculos, valores? Obrigada
O comentário de isaacmiron me gerou duvidas, porem já esclareci todas elas. a partir do momento em que paciente com patologia que levar a hiperinsuflação (enfizema pulmonar), que dizer que ele esta distendendo mais. Distenção está diretamente proporcional ao volume pulmonar. C=V/P
No caso do enfisema pulmonar, a complacência não estaria reduzida ao invés de aumentada?
Não, João.
O enfisema é uma doença obstrutiva que causa injúria ao tecido alveolar, ou seja, destrói as fibras elásticas e colágenas. Dessa forma, reduz a retração pulmonar (na expiração), ou seja deixa o pulmão mais complacente. (Cuidado para não confundir retração pulmonar com complacência pulmonar).
A complacência pulmonar aumenta com a idade e no enfisema. Em ambas as condições, a alteração do tecido elástico pulmonar é responsável pela ELEVAÇÃO da complacência.
Para gerar um mesmo volume, o paciente com FIBROSE necessita de maior pressão que o indivíduo normal e o paciente enfisematoso. Consequentemente, o doente com fibrose apresenta uma COMPLACÊNCIA MENOR que o enfisematosa e o normal.
Complementando: o aumento da pressão venosa pulmonar, o pneumotórax, o edema alveolar e a atelectasia também levam à REDUÇÃO da complacência. (Bibliografia do livro de Fisiologia da Margarida, tentei não deixar tão acadêmico).
Obrigado Humberto!! Mais uma vez respondendo minhas dúvidas. Sucesso!
Muito divertido aprender com você , adorei :D
Muito obrigado, eu aprendi com voce. que Deus lhe dê mais sabedoria.
Meu raio x deu pulmoes expandidos sem velamemtos
Sem velamentos,o que é velamentos?
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