Introdução (ou algo que o valha)

Já vou logo avisando.
Não atualizo esse blog com a frequência que vocês merecem, mas quando resolvo escrever uma postagem eu pesquiso o tema com uma dedicação canina e redijo o texto com carinho maternal. Quanto a isso, dizem por aí que só existem 3 certezas na vida: A Morte, o Imposto de Renda e as informações encontradas neste blog (essa última certeza é fruto de um dos meus delírios de grandeza, hehehe).
Espero que encontrem a informação que procuram, que tirem as dúvidas, e que algum dia eu ganhe sozinho na mega sena.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Faculdade de Fisioterapia 100% à distância? Isso é sério mesmo?

Recentemente o decreto presidencial  Nº 9.057, o qual autoriza a Educação à Distância (EaD) nos cursos de graduação na área da saúde, vem causando um grande mal estar em todas as pessoas minimamente preocupadas com a qualidade da formação de recursos humanos em saúde.

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) e os Conselhos Federais de diversas categorias, inclusive o COFFITO, já se posicionaram veementemente contra qualquer graduação na área da saúde ser ministrada 100% à distância. Embora não haja (ainda) nenhuma faculdade de fisioterapia totalmente à distância, este decreto abre uma perigosa brecha para a criação de tais cursos.


Educação à Distância
Gostaria de deixar claro que não há problema algum com a EaD em si. Eu já fiz alguns cursos EaD que considerei muito bons e acredito que algumas disciplinas do curso de graduação em fisioterapia podem perfeitamente ser ministradas 100% sob a forma de EaD. A ojeriza está sendo causada pela possibilidade de se cursar uma graduação na área da saúde de modo totalmente virtual. Você consegue imaginar um(a) fisioterapeuta que obteve seu diploma sem nunca ter feito um estágio ou sequer uma aula prática?


A graduação em área da saúde demanda não apenas o domínio de conhecimentos teóricos e habilidades psicomotoras específicas, mas também, e principalmente a comunicação e a relação com o paciente e seus acompanhantes. Este tipo de expertise só se obtém com a prática; com o encontro entre professor e o estudante, com a observação da relação preceptor/paciente e entre a própria relação estudante/paciente. Profissionais da saúde devem aprender não só a teoria, mas também como se comunicar, educar e se relacionar com outro ser humano. Assim, um curso de graduação 100% EaD na área da saúde é não só uma insensatez, mas principalmente uma subversão do modelo de formação profissional.

Será que podemos dispensar as aulas práticas ?

Esta situação me traz à memória o texto “Curso de preparação de nadadores”, uma metáfora criada por Jacques Busquet em 1974 e que se encaixa perfeitamente na discussão desse tema:
Imagine uma escola de natação que se dedica um ano a ensinar anatomia e fisiologia da natação, psicologia do nadador, química da água e formação dos oceanos, custos unitários das piscinas por usuário, sociologia da natação (natação e classes sociais), antropologia da natação (o homem e a água) e, ainda, a história mundial da natação, dos egípcios aos nossos dias. Tudo isso, evidentemente, à base de cursos enciclopédicos, muitos livros, além de giz e quadro-negro, porém sem água. Em uma segunda etapa, os alunos-nadadores seriam levados a observar, durante outros vários meses, nadadores experientes; depois dessa sólida preparação, seriam lançados ao mar, em águas bem profundas, em um dia de temporal.
Percebem agora a enorme insensatez que é uma graduação em saúde no molde 100% EaD?
Diversos estudiosos da formação de profissionais da saúde afirmam que os cursos de graduação possuem, atualmente, uma grande deficiência no que se refere a integração entre a teoria e a prática. Defendem a inserção cada vez mais precoce nos campos de estágio de modo que o estudante tenha contato com a prática desde os primeiros períodos da graduação.
Ora, temos aqui um paradoxo. De um lado especialistas pesquisando e comprovando que existe carência no conteúdo prático na formação dos profissionais de saúde, do outro lado temos um decreto que, apesar de todo o repúdio e incoerência, foi sancionado pelo presidente da república.

A quem interessa a EaD em saúde
Infelizmente vivemos um momento em que simplesmente não é possível acreditar que não hajam interesses escusos envolvidos em iniciativas políticas como essa. Não sou adepto de teorias da conspiração, mas é possível que hajam interesses financeiros envolvidos. Afinal de contas, ao contrário das salas de aulas que possuem um limite físico para a lotação de turmas, um ambiente virtual de aprendizado pode ter centenas de alunos matriculados, sem contar a economia com instalações e professores.

Finalizando

Enfim... apesar da possibilidade de ser feito, espero que nenhuma universidade crie um curso de graduação em saúde que seja totalmente virtual . . . e espero que os Conselhos consigam pressionar para que este decreto seja revisto. 

Um comentário:

Grupo CIF Brasil disse...

Parabéns pela matéria!
Divulgue mais e mais