terça-feira, 24 de outubro de 2017

Os cinco pecados da Fisioterapia

Outro dia desses enquanto eu arrumava meu armário reencontrei uma pasta cheia de artigos antigos. Decidi folhear aquele monte de papel pra ver se tinha algo digno de ser salvo da lata de lixo, e qual não foi a minha surpresa quando encontrei um trabalho chamado “How Can we Translate Good Science into Good Perinatal Care?” (Como podemos traduzir boa ciência em um bom cuidado perinatal?), escrito por David A. Grimes e publicado em 1986 no periódico Birth.

Este artigo é interessante pois desmonta algumas verdades supostamente absolutas do mundo da medicina em uma linguagem simples e direta. Obviamente que essas verdades absolutas também existem em outras profissões da área da saúde, inclusive na fisioterapia (Ah! E como temos verdades absolutas!!). Quem tiver interesse em ler a obra original, é possível baixar uma cópia do artigo usando o sci-hub usando o link http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1523-536X.1986.tb01013.x/pdf. (acesse a postagem que fiz sobre o scihub para saber como (http://fisioterapiahumberto.blogspot.com.br/2016/02/como-baixar-artigos-cientificos.html).

Inspirado por esse trabalho, decidi catalogar e comentar aqueles que eu considero os 5 pecados do mundo da fisioterapia. Quero deixar claro que apesar do tom satírico não se trata de um texto de deboche, mas sim uma visão crítica de alguns pontos que considero barreiras ao desenvolvimento de nossa profissão.

#1 Tratar técnicas como religião
Uma das coisas boas da fisioterapia é que existe uma quantidade generosa de técnicas, métodos e conceitos. Muitas delas atendem por siglas, como é o caso do RPG, PNF, GDF e RTA. Outras pelo nome de seus criadores como os conceitos McConnell, Bobath, Mulligan, Maitland, os métodos Pilates, Busquet, McKenzie e Cyriax, isso sem nos esquecer, claro, das técnicas cujo nome de batismo é mais direto, como é o caso da microfisioterapia, crochetagem, kinesio tape, etc.

Eu realmente acho maravilhoso termos este leque de opções de tratamento. O que mais posso dizer? Tem para todos os gostos e bolsos! O problema surge quando você gosta tanto de uma abordagem que passa a acreditar que com ela você é capaz de atender qualquer coisa, no melhor estilo cartilagem de tubarão, cogumelo do sol e demais panacéias. Pensando melhor, a crença que uma abordagem é absoluta em todos os aspectos é apenas uma coisa irritante e não necessariamente um problema. A coisa só fica feia de verdade quando essa pessoa passa a ministrar cursos ensinado a bendita técnica.

Quem nunca fez um curso cujo instrutor(a) fica desqualificando outras técnicas ou tentando te convencer que a abordagem que ele ensina é superior a todas as outras? Em alguns casos parece até que você está sendo doutrinado(a) para se converter a uma seita ou religião. Olha, não sei quanto a vocês, mas eu já passei por isso... infelizmente. . . 

Se aceitarmos como verdade inquestionável que esse tal conceito/método/técnica é o único jeito certo de se tratar, podemos deduzir que todo o restante está errado. Nesse caso eu me pergunto: Como a fisioterapia conseguiu ser reconhecida como profissão antes de inventarem essa técnica? Durante os anos que passamos na faculdade só aprendemos inutilidades?  

Por mais efetiva que uma abordagem seja, certamente ela não é infalível e nem aplicável a todos os pacientes e principalmente deve ser compreendida como uma ferramenta que pode e deve ser combinada a outros conceitos/métodos/técnica e nunca (absolutamente nunca!) venerada como um dogma religioso . . . Não se iluda com falsos profetas!!!! 

“ ... e ainda mais, dentre vós
Surgirão numerosos cursos e workshops,
Que arrancarão dos incautos 
voluptuosas quantias de dinheiro.”

(Pronômios versículo 171)” 


#2 A perpetuação do pedantismo.

“Na teoria a prática é de um jeito, mas na prática a teoria é outra” 

Fisioterapeutas precisam de muitas horas de prática para desenvolver as habilidades necessárias para sua profissão. Na graduação, este aprendizado é chamado de estágio, enquanto que na pós-graduação recebe o nome de treinamento em serviço, mas em comum ambos exigem a preceptoria de um fisioterapeuta mais experiente cujo papel é basicamente o de ajudar o estudante a fazer a integração entre a teoria e a prática, se possível sem causar danos permanentes durante o processo. 

Infelizmente nem todos os preceptores tem formação pedagógica e isso acaba resultando em várias estórias traumáticas relacionadas ao estágio. Conheço estórias de preceptores que se desdobram em cobranças esdrúxulas e algumas vezes desnecessariamente rígidas. Se você passou por isso e sobreviveu, por favor ajude a quebrar esse círculo vicioso ! Não reproduza maus exemplos com seus estagiários. Acredite em mim: tortura não costuma formar fisioterapeutas mais competentes. 

Todo mundo tem um herói ou uma heroína nos quais se espelha. Que tal ser essa pessoa? Desse jeito você passará adiante um pouco de sua própria essência (mais uma vez recomendo que dê preferência a parte virtuosa de sua essência), mesmo que o caminho que você percorreu para adquirir seus conhecimentos tenha sido tão agradável quanto a passagem de um cálculo renal pela uretra, ainda assim não precisa fazer o(a) estagiário(a) sentir isso na pele.
Fonte: http://blog.drpepper.com.br/a-culpa-e-sempre-do-estagiario-2/


#3 Acreditar que desunidos venceremos.

Ouvimos o tempo todo que médicos são corporativistas, que se protegem mutuamente, que um não joga pedra no outro (pelo menos não em público) e lamentamos o fato de nós, fisioterapeutas, sermos individualistas, desunidos, que não nos valorizamos, etc. Curiosamente já ouvi essa mesma queixa de fonoaudiólogas, enfermeiras, terapeutas ocupacionais e, pasmem! Já ouvi isso também de médicos . . . será então que todas as profissões da saúde queixam-se de serem desunidas?

Talvez por termos uma considerável liberdade profissional a qual nos possibilidade atuar em consultório, clínica, hospital, estúdio de pilates, e no próprio domicílio de pacientes, isso nos leva acreditar que somos independentes de associações de classe, sindicatos e do próprio CREFITO. Quem pensa assim não poderia estar mais enganado. Somos dependentes sim destes tipos de organizações. Não adianta lutar sozinho contra profissões que invadem sua área de atuação, contra o valor ridículo que os planos de saúde pagam por atendimento de fisioterapia, ou por maior reconhecimento profissional. A ação em grupo é sempre mais poderosa!

Ao invés de reclamar que as associações profissionais não servem para nada, que tal tentar muda-las de dentro pra fora? Temos o direito e o dever de assumir uma postura ativa e fazer parte delas. O que não vale é ficar posando de vítima escrevendo textão mimimi no Facebook. 
(existem várias citações a essa frase, mas a que me inspirou foi a música Hey You do Pink Floyd) 

4# Pensar que é o MacGyver

MacGyver é o icônico personagem do seriado “Profissão: Perigo” exibido nos anos 80. Ele era capaz de proezas inacreditáveis tais como impedir o vazamento de material radioativa usando barras de chocolate ou saltar de uma torre usando um paraquedas feito com barbante e alguns sacos de supermercado. A influência desse seriado pode ser percebida entre os fisioterapeutas brasileiros nas chamadas “adaptações técnicas”, também conhecidas como gambiarras. Confesso que eu adoro gambiarras. Eu as considero um exercício de criatividade, porém uma análise mais criteriosa dos motivos que nos levam a criar as gambiarras revela que elas apenas refletem a precariedade de nossos hospitais públicos (e hospitais particulares também). 

Eu já publiquei algumas delas neste blog, e ainda as considero importantes (tanto que pretendo continuar a publicá-las), mas reconheço que é lamentável ter usá-las. Apelar para a confecção de uma gambiarra significa que o hospital não possui o material adequado para o atendimento do paciente. Na minha opinião, as gambiarras devem ser a exceção e não a regra em um serviço. Se você faz gambiarras diariamente, não ache isso normal. Vá importunar sua chefia imediata ou mesmo diretor do hospital. Não aceite passivamente o sucateamento dos serviços de saúde.



#5 Acreditar que fez voto de pobreza 

Esse último pecado é o mais difícil de explicar, até porque ninguém o comete de forma consciente. Esse pecado diz respeito a subvalorização de nossa profissão do ponto de vista financeiro. Mesmo considerando a crise econômica que enfrentamos, ainda assim acredito que nós, fisioterapeutas, assim como muitas das profissões da saúde não tem o reconhecimento financeiro que merece. 

Talvez isso tenha a ver com a crença de que temos o dever religioso de trabalhar de graça ou por quase nada. Ajudar a quem precisa faz parte do juramento proferido no dia em que nos formamos, mas isso não significa que fizemos voto de pobreza.

Os salários pagos aos profissionais da saúde na rede pública são um insulto, principalmente se comparados aos salários de senadores, deputados, vereadores e seus respectivos ASPONEs (Assessores de Porra Nenhuma). Pela natureza de nosso trabalho não podemos negar cuidados a quem está com a vida em risco e nem abandonar plantões ou fechar as portas do hospital. Talvez por isso os governantes e legisladores não se preocupem em reajustar os salários ou garantir condições dignas de trabalho, afinal de contas, muitas vezes trabalhamos sem parar, mesmo em condições insalubres. Eles sabem que vamos reclamar, espernear, xingar, mas dificilmente vamos entrar em greve. Então porquê um político se preocuparia em reformar um hospital quando pode reformar uma praça? 

Assim, acabamos por nos sujeitar a trabalhar em locais sem infra estrutura, sem segurança e até com salários atrasados. Destaco que por muito menos do que isso os metalúrgicos e trabalhadores de montadoras de automóveis costumam cruzar os braços. 

Mas como resolver esses problemas, ainda mais em tempos de crise econômica?
A resposta não é simples, mas talvez esteja ligada ao terceiro pecado. Só conseguiremos mudar isso com atitude e com união! 
Devemos fortalecer os sindicatos, mesmo que você não confie nos sindicalistas, vá e participe, incomode e cobre deles. Faça o mesmo com o seu CREFITO! Torne-se uma pedra no sapato dessas instituições, divulgue nas redes sociais e caso seja necessário, faça greve sim! Alie-se a outras categorias profissionais e pressione os governadores e legisladores. Seja inconveniente. 

Adaptando uma frase de Charles Bukowski: Ficar em casa deixando os outros decidirem por você dificilmente passa margarina na torrada ou alimenta o gato. Depois de um tempo você desiste da torrada e acaba comendo o gato.

Concluindo

Pois bem galera, essas são minhas opiniões. Questionáveis, sem dúvida, porém não são fora da realidade. Acho que é possível resumir todos os cinco pecados na seguinte alegoria:

Nós, enquanto grupo de profissionais de saúde, criamos nosso próprio Frenkenstein, o qual é reflexo de nossas crenças e atitudes. Quem conhece a obra de Mary Shelley, sabe que a criatura Frankenstein não nasceu perverso, mas foi levado a se tornar um monstro pelos maus tratos de seu criador. Nosso Frankenstein é mais ou menos assim. Uma força invisível que tem o potencial para o bem e para o mal.
Creio que todos os profissionais da área da saúde compartilham muitas virtudes as quais são eventualmente corrompidas e transformadas em vícios. Então que tal alimentarmos nosso Frankenstein com atitudes e virtudes? Não é preciso ir pra rua com cartazes se você não quiser. Pode começar com algo bem mais simples: Perturbe sua chefia, perturbe a operadora de planos de saúde, perturbe o sindicato, perturbe os Conselhos, perturbe qualquer associação profissional com representatividade e que tenha poder legal e político para exigir mudanças. Use e abuse dos seus contatos nas redes sociais, mande e-mails para as associações, incomode-os e faça-os se mexer na direção que você quer. Sei que o que vou escrever é o maior clichê do mundo, mas lembre-se que a união faz a força.

2 comentários:

Aléssio Niehues Fernandes disse...

Ótima reflexão!

Unknown disse...

Show de bola cara!!! Se tiver chapa na próxima eleição, meu voto é seu!!!