quinta-feira, 8 de março de 2018

Mas que vídeo estranho.


Recentemente, uma amiga me enviou um vídeo pelo whatsapp de um sujeito pendurado de cabeça pra baixo sendo agarrado pela cintura por um velhinho com cara de tarado. Inicialmente achei que fosse um vídeo sadomasoquista copiado diretamente das entranhas da Deepweb, mas logo depois percebi que era uma sessão de “terapia” (acho que em toda a minha vida eu nunca usei aspas com tanta propriedade quanto nessa frase). O pobre sujeito pendurado pelos pés foi submetido a algo parecido com uma manobra para “estalar” a coluna. A pessoa que me enviou o vídeo queria saber que técnica de fisioterapia era aquela. Confesso que fiquei embasbacado com o vídeo... em transe...sem reação  e, movido por uma curiosidade mórbida resolvi fazer uma busca na internet. Minha pesquisa envolveu basicamente o Youtube, e o Google (como vocês verão pelos resultados, não foi necessário ir muito além disso).
Caso você esteja curiosa(o), o vídeo a que me refiro é esse aqui em baixo.

Maluco... isso deve doer pra Ca$##@%*

RESULTADO DA BUSCA:

No Youtube
O intuito de começar a busca pelo Youtube foi a esperança de encontrar na descrição do vídeo alguma pista sobre qual especialidade/método/conceito foi responsável por criar essa técnica. Como o Youtube não é uma mídia muito científica, usei os termos genéricos “Upside down physical therapy” (fisioterapia de cabeça pra baixo) e “Hanged man physical therapy” (homem pendurado fisioterapia). Não consegui encontrar esse vídeo em específico, porém encontrei um outro vídeo semelhante, intitulado “Chiropractic Back Crack Adjustment Unique Technique - Man hung upside down” (algo como técnica única de ajuste quiroprático para as costas – homem pendurado de cabeça pra baixo). Assista o video aqui embaixo.


Aproveitei essa referência a quiropraxia e refiz a busca adicionando o termo Chiropractic, mas felizmente não encontrei mais nenhum video desses no vídeo no Youtube. 


No Google.
No Google usei os mesmos termos utilizados na busca no Youtube. Tentei também encontrar artigos de quiropraxia ou osteopatia que mencionassem esta técnica, mas não encontrei nada. Ao que tudo indica, pendurar uma pessoa pelos pés, abraça-la pela cintura e dar um puxão pra baixo não se trata de quiropraxia e muito menos de fisioterapia.
Terapia de Inversão
Entretanto, encontrei alguns vídeos sobre uma técnica conhecida por “terapia de inversão”, a qual explora os efeitos fisiológicos de posicionar o paciente em ponta cabeça para o tratamento de dores na coluna. Isso não era exatamente o que eu procurava, mas achei interessante e vou compartilhar com vocês dois artigos sobre o tema – afinal de contas, vai que esse troço vira moda. Eu não duvido da capacidade dos charlatões ganharem dinheiro com invenções mirabolantes que prometem curar praticamente tudo, desde dor de dente até câncer de próstata.

TRAÇÃO INVERTIDA
Em março de 1986, foi publicado no JOSPT um artigo intitulado The Effects of Inversion Traction on Spinal Column Configuration, Heart Rate, Blood Pressure, and Perceived Discomfort (Efeitos da tração invertida sobre a configuração da coluna vertebral, frequência cardíaca , Pressão Sanguínea e Desconforto Percebido).

Neste artigo, o autor investigou dois dispositivos que posicionam o indivíduo de cabeça pra baixo. Um deles faz isso com flexão de quadris e joelhos (como se a pessoa permanecesse sentada numa cadeira, só que de cabeça pra baixo) enquanto o outro deixa o paciente de cabeça pra baixo feito morcego, pendurado pelos tornozelos. (FIGURA ABAIXO)
Os participantes ficavam de ponta cabeça durante aproximadamente 7 minutos e os achados principais incluem:

1) Ambos os sistemas de inversão produziram aumentos significativos na distância L5-S2.
2) Ambos os sistemas diminuíram a profundidade da curva torácica, enquanto apenas o dispositivo que promove a inversão com flexão de quadris e joelhos diminuiu a profundidade da curva lombar.
3) Ambos os sistemas de inversão diminuíram a distância C7-T1 2 como resultado das mudanças na curva torácica.
4) Segmentos C7-S2, L1-S2 e L3-L4 foram aumentados em comprimento pelo sistema de inversão com flexão de quadris e joelhos, mas não pelo sistema em que os indivíduos são suspensos pelo tornozelo.
5) A inversão diminuiu significativamente a freqüência cardíaca e elevou a pressão arterial em uma média de 20 mm Hg. 
6) Após a inversão, ao retornarem a posição ortostática normal, a freqüência cardíaca para ambos os sistemas aumentou, enquanto a pressão arterial diminuiu apenas para o que suspendia o indivíduo pelos tornozelos.
7) As informações subjetivas do questionário indicaram que a inversão com flexão de quadris e joelhos era o sistema de inversão mais tolerável.

Infelizmente esse trabalho não nos permite avaliar o efeito dessa terapia em indivíduos com dor de coluna.

EFEITOS FISIOLÓGICOS DA TERAPIA DE INVERSÃO
Um outro artigo publicado em 1985 no Journal of Canadian Chiropractic Association ( JCCA ) intitulado Inversion therapy: a study of physiological effects (Terapia de inversão: estudo de efeitos fisiológicos). Esse trabalho investigou 56 indivíduos divididos em 2 grupos: 40 indivíduos para investigação de efeitos sobre a Amplitude de movimento de flexão anterior e  lateral de tronco e manobra de elevação de perna retificada. Também foi realizada mensuração eletromiográfica da atividade dos músculos paraespinhais e finalmente, Pressão Arterial e Frequência Cardíaca.

Dispositivo utilizado na pesquisa

Nesse mesmo estudo, uma segunda amostra de 16 indivíduos permanecia de cabeça pra baixo por 3 minutos e eram submetidos a radiografias da coluna lombar para avaliar a separação dos espaços intervertebrais ( Ainda bem que esse estudo foi proposto na década de 80. Se fosse hoje, duvido que o Comitê de Ética em Pesquisa fosse permitir a irradiação dos participantes).
Os principais achados deste estudo foram:
- frequência cardíaca e pressão sanguínea não se alteraram
- a ADM de flexão anterior de tronco aumentou 25%
- A atividade Eletromiográfica dos músculos paraespinhais tende a diminuir
- Ocorreu retificação da lordose lombar
- distração dos espaços intervertebrais entre L4-L5, e entre L5-S 1

CONCLUSÃO:
Não consegui identificar qual a especialidade que pratica a técnica vista no vídeo. Porém a busca pela identificação da técnica resultou no encontro de artigos que descrevem a terapia de inversão. Não estou muito certo sobre a utilidade da terapia de inversão, uma vez que apesar de resultados de distração vertebral bastante interessantes, os efeitos sobre a Pressão Arterial foram conflitantes nos dois artigos encontrados (com PA não se brinca). Encontrei também referência a efeitos de aumento da pressão intraocular em indivíduos submetidos a esta modalidade de tratamento. Esses efeitos adversos são bastante preocupantes e certamente contraindicariam essa técnica pra muita gente. Finalmente busquei artigos sobre os efeitos da terapia de inversão em indivíduos com dor lombar, mas não encontrei nada publicado.
Pois bem, espero que tenha gostado

Até logo e não se esqueçam da saudação universal:  
Bah-weep-graaaaagnah wheep nini bong

REFERÊNCIAS:

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