quinta-feira, 26 de abril de 2018

Como salvar a vida de uma pessoa que está tendo um AVC usando agulhas (é sério isso??)


Semana passada recebi um vídeo que supostamente ensinava como salvar a vida de alguém que estivesse tendo um AVC simplesmente tirando algumas gotas de sangue da ponta dos dedos  e do lóbulo da orelha (SIM!!! Isso mesmo que você acabou de ler). Estou acostumado a receber bobagens que chegam pelo facebook e whatsapp, as quais são, em sua maioria vídeos engraçados, Fake News idiotas ou teorias da conspiração. De fato eu não dou muita importância pra essas coisas. No entanto, supostos tratamentos milagrosos costumam me perturbar pra valer, principalmente porque existem pessoas que vão seguir à risca a recomendação de tratamento milagroso, não importando o quão ilógico ou sem fundamento seja. Aliás, como todo e qualquer lixo da internet, esse tipo de mensagem tem o enorme potencial de se tornar viral. Se você (ainda) não recebeu esse video, clique abaixo e assista.
 
Pois bem galera, não há nada mais trabalhoso do que tentar explicar o óbvio, mas como a missão deste blog é discutir os assuntos relevantes e irrelevantes do mundo da reabilitação, tentarei explicar cientificamente o porquê de furar os dedos e os lóbulos das orelhas de pessoas que estejam sofrendo um AVC é uma idiotice. Porém, antes de continuar quero declarar para aqueles que adoram um mimimi que estou ciente que o vídeo demonstra uma técnica de sangria que, de fato existe, e é utilizada na Medicina Tradicional Chinesa.

Informação errada e perigosa
Eu considero esse vídeo particularmente danoso por dois motivos:
[1] É um vídeo que orienta pessoas leigas a desperdiçar tempo e esforços agulhando os dedos, a orelhas de quem estiver tendo um derrame cerebral (AVC) e ainda por cima aguardar cinco minutos antes de buscar socorro, e 
[2] Viraliza a ideia de que não se deve mover uma pessoa que esteja tendo um derrame, pois, segundo o narrador, isso poderia fazer os capilares cerebrais explodirem (WTF !!!!!).

No mundo real, uma pessoa tendo um AVC deve ser socorrida o mais rapidamente possível! Não espere até ela recuperar os sentidos, e se não tiver socorro móvel disponível na sua cidade, coloque-a em um carro e leve-a ao pronto socorro imediatamente! Eu posso lhe assegurar que o cérebro dela não irá mandar o seu carro pelos ares ao passar por um buraco (a menos, claro, que seja o professor Xavier dos X-men).

O que fazer (de verdade) no caso de suspeita de AVC
No caso de um AVC, tempo é cérebro. Todo profissional de saúde que lida com pacientes neurológicos conhece essa frase. Ao se identificar ou suspeitar que uma pessoa esteja tendo um AVC, deve-se imediatamente levá-la a um pronto socorro ou chamar o serviço de atendimento móvel de emergência. Em hipótese alguma, deve-se ficar esperando a boca retornar a posição normal (lembrando que nem todo AVC evolui com desvio da mímica facial) e muito menos os sintomas desaparecerem! ! !

Para termos uma referência de como o tempo é importante, o Hospital Israelita Albert Einstein recomenda que o tempo para o diagnóstico do paciente com AVC, desde a entrada na emergência até a confirmação por exame de imagem (tomografia ou ressonância magnética) deve ser de, no máximo, de 45 minutos. Ainda segundo os protocolos do Hospital Albert Einstein, o tratamento para a desobstrução das artérias (no caso de um AVC isquêmico) deve ser de no máximo 4 horas e 30 minutos do início dos sintomas. Quanto menor o intervalo de tempo entre a identificação do tipo de AVC e o início do tratamento, maiores as chances de recuperação, menores as sequelas e menores as taxas de mortalidade.
Ou seja: o vídeo que está sendo compartilhado nas redes sociais manda fazer exatamente o oposto do que deve ser feito.

De onde surgiu essa ideia?
Para escrever esta postagem, pesquisei sites e blogs para tentar entender de onde surgiu essa lenda urbana. Alguns sites em inglês com comentários datados de 2006 já fazem referência a um email que menciona uma tal de Irene Liu que compartilha a experiência de ter salvo a vida de um professor que estava tendo um AVC usando a técnica de sangria.
Seguindo essa pista, fiz uma busca no Google com os termos “blood-letting puncture” + Stroke e encontrei alguns artigos interessantes e que podem explicar muita coisa.

Alguns artigos científicos
Eu quis fazer uma busca para ver se existe alguma evidência científica que justifique essa técnica, e o que encontrei foram vários artigos usando modelos animais e apenas um único trabalho publicado com humanos.

Efeito da sangria em Doze Pontos-Fonte da Mão sobre a Consciência e Frequência Cardíaca em Pacientes com Apoplexia (Effect of Blood-letting Puncture at Twelve Well-Points of Hand on Consciousness and Heart Rate in Patients with Apoplexy). 
Journal of Traditional Chinese Medicine 25 (2): 85-89, 2005   http://www.journaltcm.com/modules/Journal/contents/stories/052/2.pdf

Na introdução desse artigo, publicado em 2005, é feita uma breve observação de que a sangria de pontos localizados na extremidade dos dedos é uma prática de primeiros socorros para pessoas com apoplexia (apoplexia é um sinônimo para AVC) difundida entre os praticantes da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), muito embora não tenha sido formalmente testada usando o método científico.   
Esse estudo foi desenhado como um ensaio clínico, mas a metodologia não foi bem descrita, o que me deixou com várias dúvidas relacionadas a interpretação dos resultados. Participaram do estudo 52 indivíduos com diagnóstico confirmado de AVC. Os participantes foram divididos em um grupo com 30 indivíduos que, além do tratamento de rotina para AVC, receberam também o tratamento por meio de sangria nos dedos. Os outros 22 pacientes compuseram o grupo controle, o qual recebeu apenas o tratamento de rotina para AVC.
A escala de coma de Glasgow, Frequência Cardíaca, Frequência Respiratória e a Pressão Arterial foram avaliadas nos pacientes em um único dia, imediatamente antes da sangria nos dedos e 15, 30 e 45 minutos após. Já o grupo controle (que não recebeu o agulhamento) foi avaliado apenas em igual período de tempo.
Eu, pessoalmente, achei que a metodologia poderia ser melhor... talvez um acompanhamento por mais dias, por exemplo. Os resultados mostraram aumento na FC e na PA sistólica no grupo da sangria, porém a mudança no estado de consciência ao longo de 45 minutos de observação foi equivalente nos dois grupos.

Depois desse trabalho, houveram algumas publicações que investigaram, em modelos animais, o efeito da sangria dos pontos dos dedos.

Blood-letting punctures at twelve Jing-Well points of the hand can treat cerebral ischemia in a similar manner to manitol.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4146051/

Effects of bloodletting puncture at Jing-Well points in distal ends of finger and toe on survival rate and brain edema in cerebral ischemic rats

Effects of bloodletting puncture at Jing-Well points in distal ends of finger and toe on survival rate and brain edema in cerebral ischemic rats

Não irei comentar os detalhes desses artigos, mas posso dizer que quase todos concluem que a sangria melhora o aporte sanguíneo da região do cérebro do ratinho. Obviamente, apesar dos resultados interessantes, não podemos extrapolar os resultados para humanos sem que um estudo formal em humanos tenha sido feito. Muito menos podemos afirmar, com base em pesquisas com ratos, se essa técnica aplicada como recurso de primeiros socorros no momento em que o AVC é capaz de salvar a vida de alguém.

Moral da estória
O objetivo dessa postagem não é vilanizar a acupuntura, mas sim a de tentar conscientizar as pessoas a não compartilhar bobagens pela internet, principalmente as relacionadas aos cuidados com a saúde. Tudo bem, sei que o facebook e o whatsapp ficariam muito mais chatos sem as teorias de conspiração e sem as Fake News, mas quando informações equivocadas podem colocar a vida de pessoas em risco (como em mensagens dizendo que não devemos nos vacinar contra a febre amarela ou ensinando a cura do câncer apenas com alimentos) nós, como profissionais de saúde, temos o dever de ao menos tentar impedir a propagação dessas mensagens virais.
Vejam bem, se este vídeo defendesse o uso de sangria em pacientes que já receberam os primeiros socorros e estão hospitalizados e clinicamente estáveis, eu juro que não me daria ao trabalho de escrever uma postagem como essa. Na verdade, talvez escrevesse sim, mas com o objetivo de me solidarizar com os pobres pacientes hemiplégicos que, não bastasse sua condição de saúde, ainda estariam sendo submetidos a sessões de tortura.

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