terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Mulheres Girafa de Padaung

Salve, Salve Fisionautas!!!!
Preciso começar esse texto reforçando minha crença de que o mundo é um lugar realmente extraordinário. Talvez você esteja se perguntando porque eu comecei este post com esse comentário piegas? Vou lhe dizer: Você sabia que existe uma comunidade na Tailândia chamada Padaung, que preserva uma antiga tradição de modificação corporal? Não estou me referindo a tatuagens, branding ou body piercing. Não! Como eu mencionei, estou me referindo a algo extraordinário. As mulheres dessa comunidade tem o costume de “alongar” seus pescoços utilizando espirais de metal. O resultado, ao final de vários anos, é aspecto de um pescoço extraordinariamente comprido. Fato esse que lhes rendeu o apelido de “mulheres-girafa”. 

ATENÇÃO: O objetivo desta postagem não é discutir aspectos políticos e nem culturais da tribo Padaung, mas sim fazer algumas considerações sobre as consequências anatômicas de se passar décadas com o pescoço imobilizado por uma estrutura de metal. 

Como funciona esse lance de se alongar o pescoço? 
O processo de "alongamento de pescoço" praticado pelos Padaung tem início ainda na infância. As
meninas começam a usar as espirais entre 5 e 9 anos de idade. Essas espirais são feitas de latão, com aproximadamente um terço de polegada de diâmetro. A primeira espiral que é colocada tem cerca de 9 voltas e pesa em torno de 2,5 kg. Com o passar do tempo, mais loops são adicionados. Relatos na literatura informam que ao final desse processo é possível ter espirais com até 32 voltas e pesando entre 13 a 15 kg.  

Reza a lenda que o pescoço dessas mulheres é tão dependente desta sustentação externa, que caso as espirais de metal sejam retiradas, o pescoço acabaria por tombar para a frente resultando em morte por sufocamento. 

Felizmente isso não é verdade. Embora a imobilização prolongada de fato deixe sequelas, como atrofia muscular e rigidez articular, a retirada das espirais não é uma sentença de morte. 

O que a Ciência tem a dizer sobre as mulheres girafa? 
Esse visual incomum gera algumas perplexidades, principalmente entre os fisioterapeutas. Será que as vértebras cervicais aumentam de tamanho? Como ficam os ligamentos? A medula espinhal também se alonga? E as artérias, vasos e nervos do pescoço, ficam distendidos? 

Embora a espiral pareça alongar os pescoços daquelas que as usam, radiografias simples são capazes de demonstrar que se trata de uma ilusão de ótica. As duas radiografias abaixo foram retiradas de uma artigo publicado em 1961 no periódico TheJournal of bone and Joint Surgery. 

Com o estudo radiográfico, fica fácil desvendar esse mistério. Observem a orientação das costelas superiores; percebam como elas se inclinam para baixo em um ângulo de praticamente 45°. Também chama a atenção a angulação das clavículas. Na radiografia não é possível visualizar, mas provavelmente as articulações acromioclaviculares estão mais baixas do que as esternoclaviculares. Finalmente o achado mais óbvio e esperado: Uma retificação cervical brutal !   

Aos pesquisar a modificação corporal dessa cultura, descobriu-se que as espirais metálicas não se apoiam na clavícula como frequentemente se supunha, mas nas costelas. Desta forma, as costelas estão constantemente sob pressão, causadas pelo peso das espirais e também pela compressão gerada entre a cabeça e os ombros. No final das contas, as costelas são pressionadas para baixo, modificando sua angulação.

Abaixo uma comparação artística do que acontece. No lado esquerdo, vemos a anatomia normal do pescoço e costelas.  No lado direito podemos ver o que acontece no corpo de uma mulher com o uso das espirais metálicas. Também chama a atenção a hipotrofia do Trapézio superior promovida pelas espirais.  
 

O que acontece ao se retirar as argolas ?
 Uma norte americana chamada Sydney V. Smith tentou alongar seu pescoço com a mesma técnica. Ela usou as espirais durante 15 anos e chegou a ter 15 voltas no pescoço antes de desistir. Aparentemente os resultados da colocação de argolas em uma adulta cujo crescimento ósseo já  finalizou é diferente dos resultados obtidos quando o processo se inicia ainda na infância.
Fisicamente, o uso das argolas lhe causava dores na região da clavícula, sensação de fraqueza muscular crescente no pescoço e ombros e dores irradiadas para os membros superiores. Depois que desistiu de usar as argolas, ela tem consultas semanais de fisioterapia para tratar restrições de movimento na região cervical e tentar restaurar a força e mobilidade articular. Socialmente, o uso das argolas lhe causou um isolamento das outras pessoas e dificuldades em encontrar emprego.
     


Referências: 








Nenhum comentário: