domingo, 20 de setembro de 2020

Sistema de Bandeiras e Fisioterapia.

Fisioterapeutas são profissionais de primeiro contato (provavelmente você já leu isso antes em algum lugar). Isso significa que podemos exercer nossa profissão de forma autônoma e independente, podendo atender um paciente/cliente a partir de sua demanda direta, ou seja, sem precisar de encaminhamento de nenhum outro profissional.

Porém, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades (provavelmente você também já leu isso antes em algum lugar). Pelo fato de podermos ser o primeiro contato para o tratamento de saúde, precisamos ser capazes de reconhecer uma doença sistêmica mascarada como disfunção neuromusculoesquelética.

Fisioterapeutas precisam redobrar a atenção na avaliação da condição clínica geral, em especial de pacientes que buscam a fisioterapia sem encaminhamento de outro profissional, principalmente porque alguns sinais e sintomas de patologias graves podem ser difíceis ou mesmo impossíveis de serem reconhecidos até que a doença tenha progredido.

Mas não precisa entrar em pânico! Felizmente existe o sistema de bandeiras, o qual nos ajuda a identificar sinais e sintomas de algo mais grave. Mas se por acaso você nunca ouviu falar no sistema de bandeiras, não tem problema, continue lendo e aproveite a viagem.


O que é o sistema de bandeiras?

Uma bandeira é basicamente um sinalizador, sua função é chamar a atenção. Apesar de muitas diretrizes de fisioterapia fazerem referência às bandeiras vermelhas, é importante saber que na área da saúde existem ao todo 5 cores de bandeiras: Vermelha, laranja, amarela, azul e preta. Essas bandeiras podem ser divididas em duas categorias distintas: bandeira clínica (vermelha) e bandeiras psicossociais (amarela, laranja, azul e preta).

Como mencionado anteriormente, muitos fisioterapeutas já estão familiarizados com as bandeiras vermelhas, mas não com as bandeiras psicossociais. As bandeiras da categoria psicossocial ajudam a identificar fatores emocionais, comportamentais e ocupacionais que podem favorecer o desenvolvimento de deficiência crônica.

Importante destacar que as bandeiras não são testes diagnósticos. Como mencionado anteriormente, sua função é sinalizar a existência de fatores que podem afetar o processo de recuperação e o retorno ao trabalho.

Embora as cores sejam as mesmas para todas as categorias da área da saúde, cada profissão possui sua lista própria de itens/atributos específicos para cada bandeira, e por motivos óbvios, nesta postagem irei me concentrar apenas nos itens de interesse para a fisioterapia.


O que são bandeiras vermelhas?
Bandeiras vermelhas são sinais de alerta identificados na anamnese e/ou no exame físico que levantam a suspeita de condições potencialmente graves. Existem certos sinais e sintomas que, quando observados no exame ou na história de um paciente, nos alertam para o fato de que algo pode estar muito errado.

Uma bandeira vermelha, portanto, pode indicar uma possível patologia grave, como condições inflamatórias ou neurológicas, problemas circulatórios, infecções, tumores ou doenças sistêmicas.

Se houver suspeita de uma bandeira vermelha, isso pode exigir investigação adicional urgente, mudanças no plano de tratamento, encaminhamento médico, ou mesmo encaminhamento imediato para atendimento em serviço de emergência.



O que são bandeiras amarelas?
Bandeira amarela é um indicador de barreiras psicológicas relacionadas a atitudes, crenças, emoções, comportamentos e família. Essas barreiras podem afetar a maneira como o paciente/cliente gerencia sua situação de saúde.

As bandeiras amarelas podem ser identificadas na história ou ao longo dos atendimentos de fisioterapia e detectar sua presença pode influenciar as decisões de manejo, incluindo o encaminhamento para avaliação por um profissional da área de saúde mental, como psiquiatra ou psicólogo.

Alguns comportamentos e atitutes que podem ser classificados como bandeiras amarelas incluem:

Pensamentos negativos e catastróficos frequentes: Pensamentos catastróficos são aqueles que imaginam eventos futuros terríveis que tenham a ver com sua família, seus planos, seu trabalho, suas economias, entre outros.

Considerar experiências dolorosas insuportáveis: Talvez essa condição seja mais reconhecida na fisioterapia pelo termo “cinesiofobia”. Em poucas palavras, trata-se do medo excessivo e debilitante que surge ao se realizar qualquer movimento, devido a uma sensação de vulnerabilidade para uma lesão dolorosa ou medo de que o movimento venha a lhe causar uma nova lesão.

Relatar dor extrema desproporcional à condição: Talvez de todos os sinais esse seja o mais desafiador, pois pode ser também interpretado como uma bandeira vermelha. Como ter certeza de que a dor é realmente desproporcional e não um sintoma de algo mais grave?

Esperar que outras pessoas ou intervenções resolvam os problemas (ser passivo no processo): Esta é atitude, particularmente prejudicial para o bom andamento dos atendimentos de fisioterapia. Muitas vezes o tratamento efetivo de condições neuromusculoesqueléticas envolvem mudanças na dinâmica do dia a dia (como por exemplo ter o compromisso de fazer em casa os exercícios terapêuticos precritos), envolve também atenção quanto a posturas e/ou hábitos. Um ou dois atendimentos de uma hora são inúteis se durante o resto da semana o paciente não mudar alguns hábitos.

Consultas a vários profissionais para obter ajuda sem melhora:. Essa prática é mais conhecida como “Doctor Shopping”. Trata-se da busca de diferentes profissionais para o tratamento de uma mesma doença ou condição. Provavelmente você já atendeu alguém que faz “doctor shopping” (eu já, e várias vezes). Para ficar mais fácil de reconhecer, vou fazer uma representação caricata: Sabe aquele paciente/cliente que chega até você e já no primeiro atendimento faz questão de enaltecer suas habilidades com frases do tipo “você é minha última esperança”, “só você pode me ajudar”, “Só dependo de você”? Além disso, durante a anamnese, você descobre que essa pessoa já passou por quase todas as clínicas da cidade, que teve consulta com os melhores profissionais (claro, incluindo você!), mas que apesar disso não foram capazes de aliviar o sofrimento do paciente/cliente? Estranho, não é? Por isso que esse tipo de coisa deve ser sinalizada com uma bandeira amarela bem grande e se possível com alguns holofotes amarelos também.

Além desses comportamentos, alguns outros sinais também sugerem bandeiras amarelas com potencial de atrapalhar a recuperação dos pacientes, tais como preocupação excessiva com a saúde, ansiedade e angústia exagerada e mudanças de comportamento/humor.

O que são bandeiras laranjas? 
Recentemente, bandeiras laranja foram adicionadas às bandeiras clínicas. Elas indicam a presença de psicopatologia, ou seja, problemas psicológicos e de saúde mental mais graves do que os indicados pelas bandeiras amarelas, alertando para problemas graves de natureza psiquiátrica.

De modo geral, podemos considerar que bandeiras laranjas representam o equivalente a bandeiras vermelhas para problemas de saúde mental e incluem níveis excessivamente altos de sofrimento, transtornos de personalidade importantes, transtornos de estresse pós-traumático, abuso / vícios de drogas e álcool ou depressão clínica.

É importante ressaltar que isso não significa que o problema físico desses pacientes/clientes deva ser deixado sem tratamento de fisioterapia durante o acompanhamento de saúde mental.

O que são bandeiras azuis?
Sinalizadores azuis são fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Podem ser compreendidos como as percepções do indivíduo sobre fatores relacionados ao local de trabalho e ao trabalho propriamente dito. Fatores como insatisfação no trabalho, preocupação se o indivíduo será capaz de atender às demandas do trabalho, relacionamentos ruins com colegas ou supervisores podem ter impacto sobre a sensação de bem estar no trabalho e, consequentemente, impactar a saúde do indivíduo.

Além de todos esses fatores, existe também uma sobreposição com as bandeiras amarelas a partir do momento em que o paciente/cliente passa a referir crenças limitantes sobre dor e trabalho: Podemos identificar esse fator ao longo dos atendimentos de fisioterapia. Quando o paciente/cliente referir crenças do tipo "se eu voltar ao trabalho, minha dor vai piorar".

Essas condições no local de trabalho precisam ser questionadas nos atendimentos de fisioterapia pois podem impactar diretamente no número de atendimentos e no sucesso da reabilitação.

O que são bandeiras pretas? 
As bandeiras pretas também abordam questões ocupacionais e, embora haja alguma sobreposição entre as bandeiras azul e preta, elas podem ser identificadas principalmente pelo fato de que as bandeiras pretas estão relacionadas a fatores do ambiente de trabalho que estão fora do controle imediato do paciente. Bandeiras pretas incluem conflito interpessoal no ambiente de trabalho, trabalho pesado com poucas oportunidades para modificar as funções, políticas da empresa inadequada em torno da gestão de ausências por doença e retorno ao trabalho (ex: Empresa não dispensa o funcionário para os atendimentos de fisioterapia.


REFERÊNCIAS





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