quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Exercícios e artrose de joelho - ligando evidência e prática

A revista Physical Therapy iniciou em janeiro de 2010 uma série de artigos que investiga temas de reabilitação baseando suas discussões e conclusões em evidências científicas. Esta proposta chama-se Linking Evidence and Practice , o que pode ser traduzido como Ligando Evidência e Prática. Esta é a tradução livre do segundo artigo, o qual tenta responder a uma questão bastante simples: Exercícios podem ajudar um paciente com artrose moderada bilateral de joelhos?
acesse o artigo original em inglês clicando AQUI,
e leia a tradução do primeiro caso LEAP sobre agudização da DPOC


INTRODUÇÃO
A osteoartrose, ou simplesmente artrose é uma das principais causas de deficiência, particularmente na população idosa. A dor e a limitação funcional são as principais queixas dos pacientes. Diretrizes internacionais recomendam o tratamento conservador como conduta inicial, incluindo uso de medicamentos, exercícios, orientações e perda de peso. Neste contexto, os exercícios são utilizados para tratar problemas específicos como a redução da amplitude de movimento, limitação de atividades, e adiminuição da força muscular e do condicionamento aeróbico.

Leve uma lição para casa
Fransen e McConnell realizaram uma revisão sistemática Cochrane para avaliar os benefícios do exercício na osteoartrose de joelho considerando 2 critérios básicos: dor e função física (Tab. 1). Nesta revisão, foram incluídos 32 ensaios clínicos quase-randomizados controlados que comparam os exercícios a uma intervenção sem exercícios. Os resultados mostraram pequeno benefício dos exercícios na redução da dor e na melhora da função física. Pelo fato dos estudos variarem enormemente na modalidade e dosagem de exercícios, não foi possível sugerir uma estratégia de exercícios ótima. Entretanto, pode-se afirmar que a maioria dos estudos ofereceu um programa baseado no fortalecimento, com ou sem exercícios de amplitude de movimento ou aeróbicos. Observou-se que o fortalecimento muscular dos membros inferiores, os exercícios aeróbicos, ou uma combinação dos dois parecia ser igualmente eficaz para a melhoria da dor e função física.


Tabela 1- Exercício para a osteoartrose do joelho: Resultados da Cochrane Review
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- 32 Ensaios clínicos controlados, randomizados e quasi-randomizados foram incluídos, 3.616 participantes forneceram dados referentes a dor e 3.719 participantes para a função física auto-relatada.
- Os participantes destes estudos preencheram os critérios diagnósticos de artrose de joelho estabelecidos pelo American College of Rheumatology ou relataram dor em joelho e foram recrutados na comunidade ou em clínicas de ortopedia, reumatologia e fisioterapia.
- Os estudos compararam exercícios com qualquer outra intervenção que não envolvesse exercícios (mais comumente: sem tratamento/ fila de espera ou programas de orientações). Os programas de exercícios variaram bastante em relação à execução (individual VS em grupo), tipo de exercícios e intensidade. 20 estudos incluíram exercícios de fortalecimento, e 9 incluíram exercícios aeróbicos em seus programas de exercícios.
- Somente os dados da avaliação mais imediata após o período de tratamento foram relatados. Em geral, os exercícios proporcionaram pequeno benefício em reduzir a dor e melhorar a função física
Dor:
Houve um benefício pequeno, porém estatisticamente significativo a favor dos exercício (Média da diferença = 0,40, intervalo de confiança 95% = O,30 - 0,50). A escala mais comum para mensuração da dor foi a sub escala de dor do Western Ontario e McMaster Universities Osteoartrite Index (WOMAC) (15 estudos), seguido pela escala visual analógica (9 estudos).
Função física auto-declarada
- Houve um pequeno e benefícios estatisticamente significativos para o exercício (media da diferença = 0,37, intervalo de confiança de 95% = 0,25-0,49). A mensuração da função física foi feita mais freqüentemente utilizando a sub escala função física do WOMAC (17 estudos)." De um modo geral, o tipo, intensidade e dosagem dos exercícios não influenciaram os resultados, exceto que um maior número de sessões de contacto entre fisioterapeutas e pacientes aumentou o efeito do tratamento.
- Estudos com desenhos mais rigorosos (por exemplo, estudos cegos, com amostra maior) produziram efeitos menores, embora ainda estatisticamente significativos
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Esta revisão tinha algumas limitações: Somente estudos em inglês foram incluídos, e apenas os resultados de curto prazo foram analisados (sem follow up). Ensaios clínicos randomizados, publicados desde a revisão Cochrane de 2008 encontraram efeitos benéficos similares a favor dos exercícios. Entretanto, uma revisão sistemática que investigou os benefícios a longo prazo mostrou que o exercício não tem um efeito significativo na dor ou na função física após 6 meses (isto é: os pacientes do estudo só praticaram exercícios durante o período de estudos, sendo reavaliados 6 meses após interromper as atividades), salvo quando sessões extra de exercícios foram aplicadas (ou seja, retornou ou manteve os exercícios após o término da pesquisa)

Exercícios podem ajudar este paciente?
Sr. S é um homem de 55 anos, com história de dor bilateral em joelhos nos últimos 3 anos, de caráter progressivo, sendo pior à esquerda. Ele informou que nos últimos 3 meses estava trabalhando em tempo integral, sentado em uma mesa na maior parte do dia (trabalho sedentário), seu peso aumentou 10 kg e seus sintomas pioraram significativamente. O Sr. S relatou a dor em joelho esquerdo como sendo 6 de 10 na escala visual analógica (Tab. 2), ele estava usando uma bengala para caminhar e tinha sintomas à noite, rigidez matinal que se resolvia após cerca de 15 minutos, e sintomas que se pioravam ao longo do dia .

Sua dor era agravada por andar mais de 15 minutos, ao subir ladeiras e também por longos períodos sentado. O Sr. S encontrou alívio usando uma bengala, movendo seus joelhos quando sentado, e tomando em doses regulares de um medicamento anti-inflamatórios não esteróides e paracetamol, As radiografias mostraram uma diminuição do espaço articular na região medial do joelho, com formação de osteofitos. Em geral, sua apresentação foi consistente com artrose moderada.

O Sr. S informou que tinha ligeira dificuldade em realizar suas atividades diárias. Na escala funcional paciente-específica (Patient-Specific Functional Scale ), que vai de 0 a 10, onde uma pontuação de 0 indica "incapaz de realizar a atividade" e 10 "capaz de realizar a atividade no mesmo nível que antes", ele identificou três atividades que ele tinha dificuldades: caminhar em uma superfície plana, subir ladeiras, e permanecer sentado (Tab. 2). O Sr. S não tinham limitações na ADM do joelho, porém relatava dor ao final do arco de flexão do joelho esquerdo. A extensão do joelho foi ligeiramente mais fraca do lado esquerdo. Ele também tinha encurtamento muscular na panturrilha e isquiotibiais, mais evidentes à esquerda.

Como os resultados da revisão sistemática Cochrane se aplicam ao Sr. S?
Os exercícios são recomendado como parte dos cuidados iniciais para a artrose, e os resultados da revisão Cochrane apóiam a utilização de exercícios. O próprio Sr. S afirmou que não tinha rotina regular de exercícios, e que seu objetivo era adotar um regime de exercícios adequados que pudessem ajudá-lo a melhorar sua habilidade de andar e diminuir sua dor.

O Sr. S começou um programa de exercícios que incluíram fortalecimento de quadríceps e glúteos e alongamento dos músculos da panturrilha e isquiotibiais. A dosagem para o fortalecimento e alongamento foi baseada nos achados do exame físico, e os exercícios foram progredidos para exercícios funcionais com aumento da resistência, conforme ele melhorava. Estes exercícios incluíram exercícios de sentar e levantar, exercícios no step com ênfase no bom alinhamento dos membros inferiores, e exercícios de resistência para o músculo glúteo médio na posição em pé com um Thera-Band azul.* Após quatro semanas, ele foi capaz de iniciar um programa de caminhada, começando com 20 minutos em dias alternados, e progredindo 5 minutos caso não houvesse piora dos sintomas, até o momento que pudesse tolerar confortavelmente 45 minutos, ele também conseguiu uma bicicleta estacionária emprestada e foi incentivado a usá-lo por no máximo 20 minutos, 3 vezes por semana. Ao longo deste período, o Sr. S recebeu informações sobre a osteoartrose e a importância dos exercícios e da perda de peso.

Quão bem os resultados da intervenção prevista para o Sr. S coincidem com aqueles sugeridos na revisão sistemática?
Após oito semanas de fortalecimento, alongamento, caminhada e exercícios de bicicleta, o Sr S relatou uma diminuição na sua dor. Sua função física melhorou. A diminuição da dor na escala analógica visual e a melhora na função física na Escala Funcional Paciente-Específica foram maiores do que a diferença mínima clinicamente significativa para cada escala (Tab. 2). O Sr. S relatou que agora ele era capaz de caminhar por quase uma hora antes de precisar descansar e raramente precisava usar a bengala.

Você pode aplicar os resultados da revisão sistemática Cochrane aos seus próprios pacientes?
Os achados da revisão Cochrane aplicam-se bem ao Sr.S. Ele tinha déficits específicos que poderiam ser resolvidos com exercícios, além disso, ele estava entusiasmado por um programa de exercícios para melhorar a sua condição. Como uma pessoa de meia idade cujos sintomas eram moderados, porém agravados pelo estilo de vida (o sedentarismo e aumento do peso), o Sr. S é um paciente típico com osteoartrose. Portanto, os benefícios de exercício podem ser esperados de pacientes que seguem um programa de exercícios. A revisão Cochrane mostra que as variações do tipo de exercício, do conteúdo e dosagem não influenciam os resultados, o que significa que os fisioterapeutas podem adaptar os exercícios para o paciente individualmente (por exemplo, programas de exercícios domiciliares Vs academia de ginástica, exercícios de fortalecimento versus exercícios aeróbios vs tai chi).

O que pode ser recomendado com base nos resultados desta revisão sistemática?
Pacientes com osteoartrose de joelho muitas vezes experimentam dor e problemas em atividades que envolvem o membro inferior ou posturas prolongadas (por exemplo, sentar-se), bem como a rigidez após uma noite de sono. Exercício podem ajudar estes déficits específicos. A osteoartrose de joelho é também uma condição potencialmente deteriorizante e sem tratamento curativo. Portanto, os pacientes com osteoartrose de joelho podem se beneficiar de exercício no manuseio desta desta condição a longo prazo. É papel do fisioterapeuta prescrever exercícios adequados aos objetivos do paciente, estilo de vida e estado geral de saúde, além de garantir que o programa de exercícios seja progressivo e desafiante. Os benefícios dependem da adesão do paciente ao programa de exercícios. Até o momento, evidências mostram que, embora o exercício sejam benéficos a curto prazo na redução da dor e melhorando a função física, estes benefícios podem não persistir no longo prazo. Portanto, estratégias para aumentar a adesão a longo prazo para o exercício, como a adição de sessões de reforço, podem ser necessários para maximizar os benefícios do exercício para pessoas com artrose do joelho.

Taí o resultado da intervenção de fisioterapia :
o Sr. S todo feliz da vida, tirando a maior onda de tiozão surfista

domingo, 8 de agosto de 2010

Fisioterapeutas no Haiti após o terremoto: Buscando um equilíbrio entre serviços humanitários e pesquisa

Esta é a tradução livre de trechos do editorial da revista physical therapy de julho de 2010. O autor do texto original chama-se Michel D. Landry. Ele é membro do Instituto de Reabilitação de Toronto (IRT), e trabalha em parceria com a fundação “Healing Hands for Haiti” (http://www.healinghandsforhaiti.org/) em uma unidade de reabilitação de lesões medulares sediada no Haiti para o tratamento dos sobreviventes do terremoto.


Fisioterapeutas no Haiti após o terremoto: Buscando um equilíbrio entre serviços humanitários e pesquisa


Em 12 de janeiro de 2010, um terremoto de 7,0 graus na escala Richter devastou a pequena nação caribenha do Haiti. Poucas horas após o evento um grande fluxo de ajuda humanitária começou a chegar a capital Porto Principe (Port-au-Prince), por via aérea, marítima e terrestre (através da República Dominicana). Seis meses após o evento, muitos dos detalhes ainda permanecem "preliminares", no entanto sabe-se que pelo menos 220.000 pessoas morreram, e apesar desta incrível contagem, acredita-se que as taxas de mortalidade seriam ainda maiores caso a comunidade internacional não respondesse tão rapidamente. Entre os profissionais que participaram do esforço global pelo Haiti haviam fisioterapeutas de todo o mundo.


MORTALIDADE REDUZIDA RESULTA EM MORBIDADE AUMENTADA
A missão principal das equipes era a de salvar vidas. No caso do Haiti, observou-se que taxas de mortalidade relativamente baixas geraram taxas de morbidade altas (ou seja: muitos sobreviventes sequelados). Estima-se em cerca de 300.000 o número de pessoas feridas durante o terremoto. Entre 2.000 a 4.000 pessoas sobreviveram com amputações, mais de 200 sobreviveram com lesões medulares, e milhares com fraturas. O fato é que o terremoto criou uma população de deficientes físicos. Mesmo antes do terremoto, o Haiti já era um ambiente bastante hostil para o deficiente, tanto no plano social quanto de uma perspectiva estrutural/arquitetônica. A destruição que este terremoto causou fez da acessibilidade e do alojamento para estas pessoas uma questão ainda mais crítica (Fig. 2). Esta demanda por reabilitação não pode ser ignorada. Desta forma, criou-se uma responsabilidade ética e moral da comunidade internacional para também prestar serviços de reabilitação adequados, de forma a garantir algum nível de qualidade de vida para estes indivíduos.

Antes do terremoto, por exemplo, haviam poucas pessoas no Haiti com TRM. Devido à baixa prevalência desta condição, poucos locais no Haiti atendiam lesados medulares. Além disso, os profissionais de saúde haitianos tinham pouca experiência com lesões tão complexas. Em comparação com os EUA, que iniciaram sua experiência em reabilitação de traumatismos medulares quando os soldados retornaram após a Segunda Guerra Mundial. Desta forma, os conhecimentos no tratamento das lesões medulares na América do Norte têm sido desenvolvidos ao longo dos últimos 65 anos, enquanto que no Haiti somente após janeiro de 2010.


NÓS PRECISAMENOS DE EQUILÍBRIO ENTRE OS SERVIÇOS HUMANITÁRIOS E PESQUISA
Pode parecer prematuro sugerir a necessidade de pesquisas, dado que muito sofrimento ainda existe no país. No entanto, é preciso compreender melhor os efeitos do terremoto do Haiti. Há duas áreas principais de investigação científica que devem ser realizados neste contexto:
A primeira linha de investigação deveria explorar os tipos de lesões que ocorreram como resultado direto do terremoto. Por exemplo, identificar o perfil clínico das pessoas que sobreviveram ao terremoto e principalmente daquelas que sobreviveram com TRM proporcionaria importantes insights sobre a etiologia e o mecanismo das lesões que ocorrem em um desastre desse tipo. Baseados apenas em nossa experiência junto a HHA, suspeitamos que muitas dos sobreviventes com TRM são jovens (menos de 30 anos), possuem poucas co-morbidades, e apresentam lesões vertebrais nos segmentos tóracicos baixos ou lombares altos.
Acreditamos que poucos indivíduos com lesões cervicais sobreviveram, pois somente os menos graves poderiam resistir à morosidade do processo de triagem e posterior transferência entre as várias instalações em todo o Haiti. O perfil dos pacientes é provavelmente diferente daqueles vistos no Canadá ou nos Estados Unidos, estas características poderiam ser utilizadas no planejamento do socorro a futuras emergências desta natureza. Por exemplo: antes de iniciar a avaliação dos pacientes haiitianos com TRM, acreditávamos que os cuidados com as úlceras de pressão seriam uma área prioritária, porém observamos que as úlceras de pressão (em sua maioria na fase IV) estavam sendo bem administradas, enquanto faltavam cuidados em relação ao intestino e bexiga.
A segunda linha de investigação prioritária está relacionada ao planejamento de alta para as pessoas com deficiências graves. A ausência de familiares (muitos estão desaparecidos ou morreram no terremoto) e a destruição da infra-estrutura dificulta enormemente a alta destas pessoas (Fig. 3).
As ONGs envolvidas nos cuidados às pessoas com lesão medular estão estudando opções e estratégias que vão desde a alta destes pacientes para barracas, a construção de casas independentes e integradas em uma comunidade, ou a criação de grandes instalações que abrigariam grupos de pessoas com deficiência. Esta última opção é vista com reservas pois poderia levar a crer que "institucionalizar" estas pessoas em grandes centros seria um retrocesso ao movimento global de deficiência.
Dado que não há uma solução que seja ideal ou mesmo adequadas em todas as configurações, a avaliação empírica de cada uma dessas opções (e outras) poderia fornecer uma base de evidências para o planejamento futuro.
De forma geral, as conseqüências do terremoto no Haiti podem gerar informações úteis e significativas, as quais poderão ser utilizadas não só para planejar o desenvolvimento futuro do Haiti, mas também para facilitar esse processo em outros países que venham a experimentar desastres naturais nos próximos anos. Em última análise, é nosso papel, como cidadãos globais, trabalhar na solidariedade com os haitianos, mas devemos também compartilhar as lições aprendidas para que possamos melhorar a resposta de emergência. Ao fazer isso, nós podemos buscar algum significado mais profundo para a tragédia no Haiti, honrar a enorme perda de vidas, e oferecer um tributo a todos que agora lutam para recuperar suas vidas enquanto vivem com deficiência.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Prevenção de quedas em idosos

Os traumatismos resultantes de quedas da própria altura são um dos principais fatores que ameaçam a independência dos idosos. Muitas das vezes as quedas ficam sem a devida atenção dos profissionais de saúde e mesmo dos familiares e/ou cuidadores. Isto ocorre por uma série de razões, entre as quais eu destacaria três: [1] No caso de não haver testemunhas da queda, o idoso simplesmente não menciona o caso a ninguém, principalmente se não resultar em lesão. [2] Tanto os cuidadores quanto o paciente erroneamente acreditam que as quedas são uma parte inevitável do processo de envelhecimento e [3] Muitas das vezes, durante o tratamento de lesões resultantes de uma queda deixa-se de investigar adequadamente as causas da queda.
Como é o caso de muitas síndromes geriátricas, a tendência a quedas está associada ao somatório de vários fatores de risco. O resultado desta combinação compromete a capacidade de compensação postural do indivíduo.


Mas calma! Nem tudo está perdido. Um número considerável de condições que predispõem a quedas em idosos são modificáveis. Os fisioterapeutas que cuidam de pacientes idosos precisam rotineiramente inquirir sobre quedas, para avaliar e identificar os fatores de risco modificáveis. Esta postagem concentra-se em estratégias para prevenção de quedas em idosos, focado na literatura científica e sem o menor interesse de ensinar receitas de bolo.

Prevenção de quedas - Vários estudos que investigam estratégias para a prevenção de quedas têm sido conduzidos. Investigou-se o papel dos programas educativos e de intervenção para melhorar a força ou equilíbrio, a otimização dos medicamentos, e a própria modificção dos fatores ambientais em casas ou instituições. Algumas intervenções têm como alvo um único fator de risco, enquanto outros têm tentado enfrentar múltiplos fatores. Em geral, as evidências sugerem que as intervenções planejadas sob medida para os fatores de risco específicos de cada idoso são muito mais eficazes do que as aplicadas como um pacotão do tipo “receita de bolo que vale pra todo mundo”.

Intervenções específicas - Uma revisão sistemática recente da Cochranne, disponibilizada em 2009, avaliou 111 estudos randomizados de intervenções para reduzir a incidência de quedas, e envolveu 55.303 pessoas idosas [Gillespie LD, Robertson MC, Gillespie WJ, Lamb SE, Gates S, Cumming RG, Rowe BH. Interventions for preventing falls in older people living in the community. Cochrane Database of Systematic Reviews 2009, Issue 2. Art. No.: CD007146. DOI: 10.1002/14651858.CD007146.pub2.]. Diversas intervenções em idosos residentes na comunidade foram capazes de reduzir a taxa de quedas (número de vezes que um idoso cai ao longo de um período de tempo), mas a maioria não reduziu o risco de cair (por exemplo, o número de pessoas que caem), ou seja: As intervenções não foram capazes de impedir que os idosos sofressem quedas, mas foram capazes de diminuir o número de quedas ao longo de um período de tempo. Este é um achado particularmente interessante para quem pretende conduzir uma pesquisa sobre queda de idosos: Concentre-se na taxa de quedas ao longo de um período de tempo e não só no número de idosos que sofreram quedas.

Exercícios – As intervenções de exercícios pesquisadas podem ser agrupadas em seis categorias:• Marcha e treino de equilíbrio• Treinamento de força• Flexibilidade• Movimento (como Tai Chi Chuan ou dança)• Atividade física geral• Endurance
Em estudos que incorporaram várias categorias de exercícios, resultaram em redução tanto da taxa de quedas quanto o risco de queda. A prática de Tai Chi, que contém elementos de treinamento de força e equilíbrio, foi considerado eficaz na revisão sistemática e em outros estudos [J Am Geriatr Soc. 2007 Aug;55(8):1185-91.A randomized, controlled trial of tai chi for the prevention of falls: the Central Sydney tai chi trial], embora possa ser menos eficaz em adultos mais velhos frágeis de alto risco para quedas [Logghe, IH, Zeeuwe, PE, Verhagen, AP, et al. Lack of effect of Tai Chi Chuan in preventing falls in elderly people living at home: A randomized clinical trial. J Am Geriatr Soc 2009; 57:70.]. Programas de exercício exclusivamente focado na melhoria da marcha ou no treino de equilíbrio reduziram a taxa de quedas, mas não o risco de cair. Intervenções que se centraram em apenas uma das outras cinco categorias de exercício não reduziu a taxa de quedas [Tinetti, ME, Kumar, C. The patient who falls: "It's always a trade-off". JAMA 2010; 303:258].

Ambiente / tecnologia assistiva - Em uma meta-análise de seis estudos, as intervenções de segurança aplicadas na casa não foram capazes de diminuir a taxa de risco geral de quedas, mas reduziu a frequência e o risco de queda para os indivíduos com maior risco de cair (exemplo: indivíduos com alterações visuais). A avaliação e a correção de alterações visuais (ex: catarata) isoladamente não reduziu o risco ou a taxa de quedas.

Educação - Educar as pessoas idosas sobre a prevenção de quedas como uma intervenção única, não reduzir a taxa e nem o risco de quedas.

Resumão e recomendações
Quedas em idosos são devidas a fatores extrínsecos interagindo com fatores intrínsecos relacionados a idade. Múltiplos fatores de risco já foram identificados, incluindo história de quedas, fraqueza de membros inferiores, idade, sexo feminino, déficit cognitivo, déficit visual, problemas de equilíbrio, o uso de drogas psicotrópicas, artrite, história de acidente vascular cerebral, hipotensão ortostática, tonturas e anemia.

Me parece razoável dizer que a intervenção para prevenção de queda em idosos é multimodal e multiprofissional. Como sugerido pelos estudos publicados, para um cuidado adequado, não adianta treinar a marcha isoladamente, ou apenas modificar os fatores ambientais. Faz-se necessário incluir uma intervenção conjunta dos profissionais médicos (Controle clínico, e ajuste dos medicamentos), dos fisioterapeutas (exercícios) e dos terapeutas ocupacionais (avaliação e adaptações ambientais e das AVD´s).

Mesmo quando os programas de prevenção da quedas tenham sido bem sucedidos em uma pesquisa controlada, a aplicação de intervenções semelhantes no “mundo real” nem sempre resultou na prevenção de quedas [Elley, CR, Robertson, MC, Garrett, S, et al. Effectiveness of a falls-and-fracture nurse coordinator to reduce falls: a randomized, controlled trial of at-risk older adults. J Am Geriatr Soc 2008; 56:1383. - - - Hendriks, MR, Bleijlevens, MH, van Haastregt, JC, et al. Lack of effectiveness of a multidisciplinary fall-prevention program in elderly people at risk: a randomized, controlled trial. J Am Geriatr Soc 2008; 56:1390.]. Neste caso, foram identificadas como possíveis barreiras para o sucesso na implementação das estratégias de prevenção, os seguintes fatores: [1] Resistência a aderência ao programa de exercícios e modificação do ambiente proposto. [2] Falta de expertise na implementação do treino de equilíbrio. [Tinetti, ME. Multifactorial fall-prevention strategies: time to retreat or advance. J Am Geriatr Soc 2008; 56:1563.]

Apesar de alguns resultados contraditórios, é razoável (e prudente) abordar os idosos que têm uma história de queda através de uma avaliação geriátrica multidimensional, com intervenções específicas aos fatores de risco identificados. É importante ressaltar que a maioria dos estudos na comunidade não aborda especificamente os idosos com comprometimento cognitivo. Assim, a eficácia das intervenções de prevenção de quedas nesta população permanence desconhecido.

1ª Feira Muito Especial de Tecnologia Assistiva e inclusão social das pessoas com deficiência do Rio de Janeiro

O Instituto Muito Especial, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), que trabalha há oito anos promovendo inclusão social da pessoa com deficiência, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia convidam para a 1ª Feira Muito Especial de Tecnologia Assistiva e inclusão social das pessoas com deficiência do Rio de Janeiro. O encaixe perfeito de ciência, tecnologia e responsabilidade social
Data: 24 a 27 de agosto
Local: Centro de Convenções SulAméricaEndereço: Av. Paulo de Frontin, 1 (esquina com Av. Presidente Vargas . Próximo a estação de metrô Estácio) - Cidade Nova . Rio de Janeiro . RJ
O evento acontecerá no 2° pavimento do Espaço Grand Ballroom.
Entrada franca.
Evento aberto ao público.
Informações:
Ligue: (21) 2286 - 3306
ou acesse: www.feiratecnologiario2009.org.br

Visite também a galeria muito especial
http://www.galeriamuitoespecial.org.br/home.php

A Galeria Muito Especial é um projeto do Instituto Muito Especial, A proposta é oferecer aos artistas com deficiência um espaço virtual para divulgação de seus trabalhos.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Exercícios Pendulares de Codman


Ernest Amory Codman, (1869 - 1940) foi um cirurgião norte americano que fez importantes contribuições em seis diferentes campos da medicina (anestesiologia, radiologia, cirurgia de úlcera duodenal, oncologia ortopédica, cirurgia do ombro, e também no estudo de desfechos clínicos – mais tarde seria considerado um dos pais da medicina baseada em evidências).

Em 1934, ele propôs um tipo especial de mobilização do ombro, especialmente recomendada após o reparo do manguito rotador. Os exercícios de Codman, ou exercícios de pêndulo, como também são conhecidos, consistem basicamente na realização de uma automobilização por meio de movimentos circulares e pendulares com o braço, obtidos com movimentos suaves do tronco, sem a contração de qualquer músculo do ombro.
Segundo o livro “Exercícios Terapêuticos, fundamentos e técnicas” (Kisner e Colby), estes exercícios ajudam a aliviar a dor através de movimentações oscilatórias com leve tração e dão mobilidade precoce as estruturas articulares e líquido sinovial. A ênfase do exercício está em manter o ombro e o braço o mais relaxados possível. Neste sentido, existe uma discordância entre os profissionais quanto ao uso de pesos durante a execução deste exercício. Alguns argumentam que para relaxar bem, o paciente não deveria segurar nenhum peso, enquanto outros defendem que o peso ajudaria no alongamento e tração da glenohumeral... ambos os lados têm bons argumentos, e ainda não há estudos definitivos sobre o assunto.

Os exercícios pendulares de Codman são uma forma simples e custo eficaz para diminuir a dor e restaurar a amplitude de movimento do ombro após uma lesão ou cirurgia. Estes exercícios incorporam três padrões distintos de movimento do ombro: circundução, flexão e extensão (para frente e para trás) e abdução horizontal (de um lado para o outro).

Os exercícios pendulares geralmente são executadas usando apenas o peso de seu braço. Para aqueles que defendem a idéia de se utilizar pesos, a recomendação é que a carga seja introduzida gradualmente e que não exceda 2Kg (aprendi esta recomendação em um simpósio há muito tempo atrás, e não encontrei na literatura alguma justificativa para este limite).

Exercício de Codman

Eu estava planejando descrever os pormenores dos exercícios pendulares em suas três variações (rotação, para frente e para trás e latero-lateral) quando me dei conta que existe o youtube. Acho que não existe jeito melhor para aprender os exercícios de Codman do que assistindo alguém fazer. O problema é que no youtube tem várias pessoas ensinado o exercícios de forma errada.Pis é, em no youtube nós podemos confiar!
O grande erro na execução desta técnica está em não orientar o paciente a iniciar o movimento pelo corpo. O paciente deve deixar o braço afetado solto, com os músculos do pescoço, ombro e cintura escapular o mais relaxados possível. Ele deve evitar ao máximo contrair os músculos desta região. O movimento do braço deve ser conseguido a partir do deslocamento do corpo (e não ativamente pelo próprio braço). Este é o detalhe mais importante do exercício, e onde a maioria das pessoas erra! O exercício pode até parecer meio ridículo, mas é a maneira correta. Assista o vídeo abaixo e confira um vídeo que apresenta atécnica da forma correta. Perceba como o fisioterapeuta deixa o braço relaxado e inicia o movimento pelo corpo.





Como podem ver, o cara dá uma reboladinha pra conseguir o movimento. Concordo que é um negócio meio ridículo, mas é isso ou ficar com dor e atrasar o processo de reabilitação. Vale a pena enfatizar que o paciente não precisa fazer isso em público.

Encontrei um site chamado CYBERPT que tem um vídeo com a demonstração correta das 3 técnicas de mobilização.
Aliás, se alguém conseguir copiar o vídeo por favor me envia uma cópia, OK?
ATUALIZAÇÃO:
Uma alma generosa atendeu ao meu pedido, copiou e gentilmente enviou o vídeo do site cyberpt. Estou disponibilizando o vídeo na minha pasta do 4shared para quem quiser baixar.
Espero que tenha sido útil.

Segue abaixo mais dois links interessantes

http://www.nismat.org/ptcor/shoulder

http://www.livestrong.com/article/104250-codman-shoulder-exercises/

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Algumas impressões sobre o livro Herdeiros de Esculápio.

Um grupo de estudantes de fisioterapia conversa despreocupadamente no corredor da faculdade. De repente, alguém comenta: - O que eu quero mesmo é trabalhar em uma UTI-Neo, pois assim concilio as duas coisas que eu mais gosto; o intensivismo e a pediatria. Logo em seguida um colega rebate dizendo que para ele o melhor é a fisioterapia desportiva. A partir dai seguiram-se argumentações apaixonadas em defesa da fisioterapia neurológica, ortopédica, dermato-funcional, etc . . . Até que uma aluna carente de bom senso resolveu dar uma declaração infeliz, afirmando que a fisioterapia pediátrica era uma sub-área; esta frase interrompeu a discussão e uniu todos os lados para rechaçar tal boçalidade. A conversa estava ficando cada vez melhor, mas precisou ser interrompida. A aula já ia começar.

Esta é uma cena relativamente comum nos corredores de uma faculdade, e provavelmente você já até participou de um bate-papo como este algumas dezenas de vezes. A possibilidade de sonhar com uma especialização (e até mesmo falar que existem “sub-áreas) só é possível porque a fisioterapia é uma profissão legalmente regulamentada e autônoma antes de mais nada. Mas para chegar aonde estamos hoje, foi preciso muito sangue suor e lágrimas.

Quem somos, de onde viemos, para onde vamos?
Em um passado não muito distante, os heróicos pioneiros da fisioterapia brasileira fundaram associações para lutar em defesa dos ideais da classe mesmo antes da profissão ter sido regulamentada ( isso mesmo, existiam fisioterapeutas antes do Decreto-Lei 938/69 – e não estou me referindo aos auxiliares não ). A Gênese da fisioterapia brasileira, incluindo um breve relato sobre a criação do COFFITO e do CREFITO-1 e alguns documentos que ilustram os bastidores das batalhas enfrentadas por nossa profissão são o grande mérito do livro “Herdeiros de Esculápio - História e organização profissional da Fisioterapia” de autoria do fisioterapeuta pernambucano Geraldo Barbosa, que muito lutou (e ainda luta) para o reconhecimento e valorização de nossa profissão. Na minha opinião, este livro deveria ser referência obrigatória na disciplina de fisioterapia legal, pois deixa bem claro que a fisioterapia não nasceu de um passe de mágica no ano de 1969, e principalmente, que qualquer conquista política de nossa categoria é precedida de organização e trabalho árduo. Este livro estimula o leitor a conhecer mais de sua história profissional e a se engajar politicamente nas lutas de nossa classe. Eu recomendo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Quem se interessar, pode visitar o blog 14-F (http://geraldobarbosa43.blogspot.com/)
Quem quiser um exemplar, solicite diretamente ao autor pelo e-mail
Boa leitura e hasta la victoria siempre!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Fisioterapia Pode Ajudar Pessoas com Ataxia de Friedreich

IMPORTANTE:
Esta é uma postagem direcionada a estudantes e profissionais da área de saúde. Não prescrevo exercícios e não faço consultas pela internet.



INTRODUÇÃO

A Ataxia de Friedreich (AF) é uma doença neurodegenerativa autossômica recessiva caracterizada por sintomas cardíacos, musculares e metabólicos, causados pela degeneração de estruturas no cerebelo e da medula espinal.

Diagnóstico clínico da Ataxia de Friedreich
A testagem genética é capaz de identificar a AF. Porém, por motivos financeiros óbvios, não se realiza o exame genético em todos os pacientes.
O início dos sintomas geralmente começa entre as idades de 5 e 15, mas são geralmente referido pela primeira vez na adolescência. A maioria dos pacientes torna-se dependente de cadeira de rodas pela segunda ou terceira década de vida. Além dos sinais típicos de lesões cerebelares (marcha atáxica, déficit de equilíbrio, dismetria, disartria, disfagia e nistagmo), as manifestações clínicas incluem também a diminuição da sensação de toque leve, da propriocepção e da sensação vibratória, fraqueza progressiva dos braços e pernas, pés cavos, cifoescoliose, além de atrofia óptica (25% dos casos), perda de audição (cerca de 10% dos doentes), diabetes em 10% dos indivíduos afetados) e cardiomiopatia (dois terços dos doentes). A cardiomiopatia e a diabetes são, geralmente, as causas de morte, mas também uma pneumonia provocada pela disfagia, pode encurtar o tempo de vida destes pacientes [1]

TRATAMENTO
Não há cura para a AF. Os sintomas e as complicações que acompanham podem ser tratados para ajudar o paciente a manter a qualidade de vida tanto quanto possível. Como em tantas outras doenças, o tratamento adequado deve envolver uma equipe multidisciplinar composta por Médicos, Terapeutas Ocupacionais, Fonoaudiólogas, Psicólogos e Fisioterapeutas.

TRATAMENTO FISIOTERAPÊUTICO:

OBJETIVOS
As metas gerais da fisioterapia são potencializar ao máximo a função e minimizar a incapacidade, deformidades e dor. Outro objetivo primário nestes pacientes é prolongar as habilidades de locomoção (aqui incluem-se tanto a marcha quanto a capacidade de “tocar” a cadeira de rodas). As principais responsabilidades do fisioterapeuta são ensinar ao paciente um programa de exercícios domiciliares abrangentes para complementar a fisioterapia ambulatorial.

AVALIAÇÃO
O paciente com AF vai precisar de uma avaliação completa e minuciosa por parte do fisioterapeuta. A avaliação deve incluir a avaliação da marcha, força, flexibilidade, amplitude de movimento, equilíbrio, coordenação, alinhamento da coluna, postura, estado funcional, resistência a fadiga, e necessidade de dispositivos auxiliares da marcha. Testes clínicos de avaliação da marcha e do equilíbrio podem ser úteis nas fases iniciais, quando o paciente ainda é capaz de realizar as trocas posturais e deambular de forma independente.

O TREINO DE MARCHA
O treino de marcha é um componente chave do plano de tratamento. O padrão de marcha na AF é caracterizado por uma marcha insegura, com passos desordenados, base de sustentação aumentada (pernas afastadas), balançando em exagero os braços e pernas, elevação demasiada das pernas e batida brusca do calcanhar contra o solo (marcha tabética, também chamada marcha calcaneante ou talonante). A batida dos pés contra o solo é proposital. O paciente causa este impacto como forma de gerar algum input proprioceptivo, e assim saber se o pé já encontrou o solo. E justamente por esta falta de input proprioceptivo, o paciente também costuma caminhar olhando para o solo, de forma a regularizar os movimentos incoordenados dos membros inferiores através do controle visual.
A denominação científica, e clinicamente mais adequada, para este padrão de marcha é “marcha atáxica da síndrome radiculocordonal posterior” (ataxia sensitiva).
Neste ponto é fundamental ter em mente que devido a perda da propriocepção, é necessário instruir o paciente a prestar atenção a seus pés enquanto caminha para melhorar a aterrisagem do pé ao final da fase de balanço.

Pacientes com AF perdem a capacidade de deambulação dentro de oito a 10 anos do início dos sintomas [2] Mesmo quando o paciente precisar de cadeira de rodas para a locomoção, a importância da marcha em casa e do ortostatismo para a descarga de peso sobre os membros inferiores devem ser enfatizadas pelos fisioterapeutas.

Exercícios de fortalecimento
Nos exercícios de fortalecimento, o paciente não deve ser levado a exaustão. Deve ser dada preferência a exercícios com poucas repetições, carga baixa e períodos de descanso entre as séries. O fortalecimento dos músculos das cinturas pélvica e escapular é importante para manter a postura e o uso funcional dos membros. Exercícios de fortalecimento do tronco podem ser úteis para minimizar a escoliose. Exercícios de PNF são recomendados para pacientes atáxicos. Neste caso, a estabilização rítmica pode ser utilizada para promover a estabilização do tronco com o paciente em prono sobre os cotovelos, na posição quadrúpede, ou de pé [3].

Exercícios de alongamento
Alongamento do tríceps sural e do arco do pé são importantes para pacientes com AF, devido a presença do pé cavo [3], o alongamento da musculatura de tronco é benéfico para o encurtamento muscular associado a escoliose. Em pacientes cadeirantes, os tendões flexores do quadril e joelho não podem ser esquecidos.

Exercícios de Coordenação
Ao instruir o paciente em exercícios de coordenação, é importante instruí-los a "observar" o movimento durante a realização do exercício. Às vezes, um espelho pode ser útil durante a execução destes exercícios. Os exercícios de coordenação não precisam se limitar aos exercícios de Frenkel, e podem (e devem) incluir atividades do dia a dia do paciente tais como cozinhar, fazer artesanato, escrever ou mesmo dançar, com instruções para que o paciente permaneça observando as atividades.

Exercícios de Equilíbrio
Devido a ataxia, os pacientes podem relatar quedas frequentes. Os exercícios de equilíbrio podem ajudar com a melhoria ou manutenção do equilíbrio de pé, durante a marcha e ao se movimentar. Instrua o paciente a fazer esses exercícios na frente de um espelho ou manter os olhos sobre um objeto parado (referencial) durante as atividades terapêuticas.

Condicionamento
Condicionamento cardiovascular deve ser enfatizado para o paciente com AF. Exercícios moderados geralmente não são contra-indicados desde que não haja disfunção cardíaca. [3] Exercícios em uma bicicleta estacionária podem ser realizados desde que o paciente consiga se manter estável durante o exercício. A Natação ou exercícios aquáticos também são benéficos.

Necessidades de equipamentos
Dispositivos auxiliares da marcha são úteis para compensar a perda de coordenação e força. No caso, as órteses, aparelhos de apoio e cadeiras de rodas podem ser recomendados para auxiliar com a deambulação e mobilidade.

CONCLUSÃO
Antes de estabelecer o plano de tratamento para um paciente com Ataxia de Friedreich, o fisioterapeuta deve fazer seu dever de casa, e de posse das principais dificuldades enfrentadas por estes pacientes realizar uma avaliação minuciosa incluindo queixas subjetivas, capacidade funcional, postura, força muscular, amplitude de movimento, flexibilidade muscular, coordenação, mobilidade, marcha, resistência e resposta cardiovascular à atividade.

Estabelecer um programa de exercícios é de extrema importância para esta população de pacientes. Um programa de exercícios para ser realizado em casa contribui para a sensação de bem-estar do paciente. Não se esqueça de realizar reavaliações periódicas para a modificação e atualização do programa de exercícios domiciliares. Devido à natureza progressiva da doença, os ganhos de força ou de coordenação não são esperados, mas como já dito anteriormente, o objetivo maior de nossa intervenção é prolongar a função e assim garantir uma maior qualidade de vida [3]

REFERÊNCIAS
[1] (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/bookshelf/br.fcgi?book=gene&part=friedreich)
[2] Muscular Dystrophy Association. (2006). Friedreich's Ataxia Fact Sheet. Retrieved from the World Wide Web: www.mda.org.au/specific/mdafa.html
[3]Blattner, K. (1988). Friedreich's Ataxia: A suggested physical therapy regimen. Clinical Management, 8(4), 14-15, 30.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Primeiro Simpósio de Tratamento de Lesões Traumáticas do Plexo Braquial

É isso aí pessoal, acabei de receber um e-mail com a divulgação deste evento.
Além da indiscutível qualidade técnica dos palestrantes, este evento ainda será grátis. Isso mesmo! Totalmente 0800!
O evento ocorrerá no dia 13 de agosto, no Instituto de Neurologia Deolindo Couto/UFRJ, na Praia Vermelha, e mais uma vez repito: INSCRIÇÕES GRATUITAS. Confira a programação no final do post.

Para se inscrever, basta entrar em contato no e-mail
capemssaude@yahoo.com.br e solicitar a sua ficha de inscrição. Depois de preenchida, reenvie para este mesmo e-mail e aguarde a confirmação. Se você não tiver e-mail, ainda assim você pode se inscrever. Basta entrar em contato pelo telefone (21) 8700 0651

Uma dica importante: Se no e-mail de inscrição você informar que ficou sabendo do Simpósio pelo Blog "O Guia do Fisioterapeuta", você concorrerá a diversos brindes sorteados no intervalo.

Mas se você prefere evitar de sair de casa numa sexta-feira 13 por causa de alguma superstição, n~çao tem problema. Além de ceder a vaga para alguém que realmente irá aproveitar esta oportunidade, você pode ficar em casa vendo TV. Nas sextas a Ana Maria Braga costuma ensinar umas receitas ótimas de empadão de frango, ou quem sabe você pode preferir ligar pro programa Bom Dia e Cia e ficar gritando "Praistaixion, praistaixon, praistaixon" para aquelas duas crianças irritantes. . . como dizia minha avó: "Gosto não se discute, se lamenta"


Vamo lá galera... mandndo boas vibrações pra quem preferir ficar em casa . . . .


. . . praistaixion, praistaixion, praistaixion, praistaixion.

Nintendo Wii ou Academia?

Foi publicado no the New York Times ( link ): Jogar Nintendo Wii pode não ferrar seus joelhos, mas também não traz nenhum benefício cardiovascular. Esta é uma das conclusões da dissertação de mestrado de Dereck Troyer, da Universidade de Ohio. Este pesquisador comparou risco de uma pessoa se lesionar em uma academia de ginástica e de uma pessoa se machucar jogando Nintendo Wii. Ele descobriu que a galera da malhação tem quatro vezes mais chances de acabar em uma emergência do que uma pessoa que fica em casa jogando Wii, e se comparado as chances de você se machucar correndo em uma esteira, o Wii é 1,5 vezes mais seguro.

Mas pera lá! Nem tudo são flores. A pesquisa também descobriu que os benefícios de ir a uma academia são muito superiores aos benefícios do exercício virtual - mesmo quando os riscos de lesão são contabilizados. As pessoas tendem a queimar duas vezes mais calorias por minuto, fazendo uma atividade real do que ao fazer a mesma atividade no Wii.

Se você, assim como eu, for um daqueles entusiastas pelo Wii que odeia academia (na verdade eu não odeio a academia, mas sim os personagens bizarros que frequentam a academia - veja listagem no final do post...) , realmente é uma luta injusta. pense bem: você deixaria de jogar WiiFit no conforto do seu quarto com ar-condicionado para ficar correndo e levantando halteres pesados e tendo de dividir espaço e os equipamentos com um monte de gente suada?

Tudo bem que o Wii não é o melhor exercício. Mas pouco exercício é melhor do que nada, não é mesmo? e jogar Wii é certamente muito melhor do que bater uma pizza de calabreza e dois litros de refrigerante enquanto joga fazenda feliz no Orkut ou "World of Warcraft" com o rabo sentado na cadeira.

Eu frequento academia, a muito contragosto, diga-se de passagem. No momento só vou pra correr na esteira, isso por culpa do "gritador" um personagem da minha academia que costuma inibir minha vontade de me exercitar.

O GRITADOR
O gritador é um sujeito de meia idade, bastante musculoso e que fica se exercitando (aparentemente com pesos muito superiores ao que ele poderia levantar), e a cada exercício ele solta um urro longo e gutural. Muito parecido com o barulho que uma pessoa faz no banheiro durante uma crise de dor de barriga.
Eu fico desconcertado e tenho aquela sensação de "vergonha do outro". Eu até evito de fazer exercícios nas máquinas, pois tenho medo de sem querer acabar fazendo um som parecido com os que o Gritador faz . . . isso me deixaria realmente deprimido . . .



O CARA DO ESPELHO
Outro personagem que me deixa bolado é o "cara do espelho". Aparentemente ele mora na academia, pois não importa o horário que eu vá a academia (meus horários de folga são aleatórios, às vezes de manhã, outras à tarde ou noite) ele SEMPRE está lá, puxando ferrro SEMPRE de frente pro espelho, e depois de completar a série ele fica lá se admirando... esse cara pelo menos fica quieto, eu só finjo que ele não existe e fica tudo bem.
AS VOVÓS GATINHAS
Essas são hilárias, umas véias cheias de Botox e plásticas, com a bunda cheia de celulite, usando roupas de lycra e falando como adolescentes... hilário


O GORDINHO METIDO A BESTA
Esse sou eu... mas como diz o ditado popular: Sou gordo mas posso emagrecer, e você que é feio? (ou tem distúrbios de comportamento como o Gritador, o cara do espelho ou as vovós gatinhas)



CONCLUSÃO
Jogar Wii Fit é muito mais divertido do que ir pra academia !
VIVA O NINTENDO WII!!!!!!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Educação a distância em fisioterapia

Se você segue este blog, provavelmente é uma das milhares de pessoas que buscam atualização pela internet. Eu sei muito bem como é ... muitas vezes só sobra mesmo aquelas poucas horas antes de dormir para tentar nos manter atualizados. E se você vive longe dos grandes centros, então a coisa fica ainda mais difícil, pois é preciso se ausentar de sua cidade e arcar com despesas de transporte, estadia e alimentação para fazer qualquer curso ou pós graduação.
Dificuldades financeiras, de tempo e de locomoção são fatores que limitam a capacitação dos profissionais não só no Brasil, mas também em vários outros países. Neste sentido, a Educação a Distância (EAD) pode ser uma boa alternativa.
Tudo bem, talvez você esteja torcendo o nariz e pensando: como pode funcionar uma EAD em fisioterapia? como eu poderia aprender PNF pelo computador? Quem vai corrigir e avaliar a quantidade de força que eu aplico em um curso do conceito Maitland a distância? Obviamente existem limitações. Porém um curso a distância pode sim ter algumas aulas presenciais, sendo o conteúdo teórico totalmente ministrado pelo computador e a prática realizada em sala de aula na presença do professor. E aí, começou a ficar interessado(a)?
No Brasil, a Educação à distância encontra-se em franca expansão, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Fazer cursos a distância é uma tendência de mercado que finalmente está chegando a Fisioterapia. Levamos uma vida bastante corrida, muitas vezes saindo do hospital direto para a casa de um paciente particular que mora do outro lado da cidade. Muitos profissionais não têm disponibilidade de horários fixos que permitam seu comprometimento com a instituição de ensino. E é essa a vantagem que estes cursos a distância trazem: você pode definir o local e o horário do curso, exceto quando têm avaliações (algumas vezes presenciais) ou chats com professores e colegas de turma.
Mas será que o mercado aceita estes cursos? O Mercado aceita todos os cursos reconhecidos pelo MEC, o que fará diferença em um processo seletivo é o que você fez com o que você aprendeu no curso. Lembro que em muitos cursos que não exigem prova para o estudante receber o certificado, existe a figura que eu chamo de "aluno contribuinte"... aquela pessoa que chega tarde, sai cedo e que adora ficar fora de sala fumando um cigarro ou fazendo uma social durante o horário da aula.
Neste momento eu estou inscrito em um curso a distância do Hospital SírioLibanês e estou adorando a metodologia (http://siriolibanes.webaula.com.br/).
A fisioterapeuta Livia de Souza, do blog Papo de Fisio (http://papodefisio.blogspot.com/) recentemente me recomendou o curso de pós-graduação a distância Fisioterapia na Reabilitação das Patologias Vasculares Periféricas (acesse o site clicando aqui), reconhecidamente o melhor a distância. Bem, confesso que estou doido para me inscrever na pós a distância... mas deixa eu terminar primeiro o curso do SirioLibanês.
A colega Michelle, contribuiu com esta postagem, recomendando o curso que ela fez pelo site http://www.fisioemuti.com.br/

Espero que eu tenha conseguido colocar algumas minhocas na sua cabeça.
Se alguém tiver experiência em cursos à distância deixa um comentário.
hasta la vista

terça-feira, 13 de julho de 2010

O Rio de Janeiro terá feira de produtos e serviços para a Fisioterapia Esportiva e Reabilitação.


O Rio de Janeiro receberá de 15 a 17 de julho a 12ª edição da Rio Sport Show, principal feira voltada para o mercado de fitness no país. Este evento traz as principais tendências em serviços e equipamentos para os segmentos de fitness, nutrição esportiva e fisioterapia esportiva.

Entre os eventos paralelos que irão acontecer na Rio Sports, destaco a FISIOREAB Sports Expo - evento voltado para profissionais de saúde envolvidos com reabilitação.

É uma ótima oportunidade para conhecer novidades. Espero que eventos desta natureza se multipliquem e finalmente mostrem às empresas, hospitais, clínicas e clubes esportivos que reabilitação, além de assunto sério, pode também ser uma ótima oportunidade de negócios.

12ª edição da Rio Sport Show
Local: Píer Mauá – Cais do Porto RJ
Endereço: Av. Rodrigues Alves nº 10 – Pça Mauá
Data: 15, 16 e 17 de julho de 2010
Horário: das 13h às 21h
Cidade: Rio de Janeiro
Informações
Tel: (21) 3478-1999


Será que a reabilitação está finalmente deixando de ser vista como caridade?

Fui convidado para o evento, e estarei por lá na quinta-feira...

Até o próximo post

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tratamento Fisioterapêutico na Paralisia Braquial Obstétrica

ATENÇÃO!

ESTA POSTAGEM É DIRECIONADA A ALUNOS E PROFISSIONAIS E NÃO SUBSTITUI O ACOMPANHAMENTO DE UM FISIOTERAPEUTA OU DE UM TERAPEUTA OCUPACIONAL.
Este blog é um espaço para alunos e profissionais de fisioterapia. Em hipótese nenhuma prescrevo exercícios ou faço consultas pela internet.

Ao terminar a postagem sobre Paralisia Braquial Obstétrica (PBO), percebi que eu não havia informado absolutamente nada sobre o tratamento de reabilitação. Admito que foi vacilo meu.
Para remediar esta situação, fiz uma busca no PubMed, no Scielo e no “Up to Date”, mas infelizmente não encontrei nada muito consistente.
Mas calma! Nem tudo está perdido. Em minhas buscas, encontrei um protocolo clínico do Ministério da Saúde do Kwait (não é zoação minha não, é do Kwait mesmo ! ) para o tratamento de crianças com PBO. Eu cruzei estas informações com a opinião de algumas colegas com experiência no tratamento destas crianças e elaborei a postagem de hoje. Pois é pessoal, nem sempre é possível justificar nossa conduta terapêutica com base em ensaios clínicos randomizados e controlados, mas enquanto este tipo de evidência não é publicada, podemos contar com a opinião de especialistas.
Espero que a postagem seja útil.

TRATAMENTO FISIOTERAPÊUTICO DE CRIANÇAS COM PBO
Este protocolo é apenas uma recomendação e as orientações podem variar de paciente para paciente. Por isso antes de iniciar o tratamento, coloque seus neurônios para fosforilar e não se prenda a receitas de bolo.
O guideline do Kwait divide o tratamento em cinco fases divididas de forma cronológica. É interessante notar que cada uma das fases possui objetivos bem delimitados. Eu pessoalmente achei esta organização muito interessante, pois não é um protocolo burro, que engessa o tratamento, mas sim algo dinâmico e que permite adaptações em cada uma das fases.

FASES DE TRATAMENTO
Fase 1. Primeiras duas semanas
Fase 2. De 2 semanas aos 4 meses
Fase 3. Dos 4 aos 6 meses
Fase 4. Dos 6 meses ao primeiro ano
Fase 5. Do primeiro ao quarto ano.

Em relação aos cuidadores:A participação da mãe (ou do cuidador) é fundamental para o sucesso do tratamento. A pessoa responsável pelos cuidados da criança deverá assistir a todas as sessões para aprender com o fisioterapeuta e/ou Terapeuta Ocupacional as técnicas de manuseio e os ajustes posturais.

Fase 1: Primeiras 2 semanas
Objetivos Específicos: Educar o cuidador no manuseio e posicionamento da criança nas atividades de vida diária.
Nesta fase, a ênfase do tratamento é para a capacitação da mãe e/ou cuidador, com instruções e demonstrações de cuidados domiciliares.

1. Manuseio e posicionamento:• Instrua os pais para manter o braço preferencialmente em supinação e rotação externa (posição oposta à “gorjeta do garçom”).
• Educar os pais para observar a cabeça do paciente e mantê-la o máximo de tempo possível na linha média e usar uma almofada em forma de “C” (Fig. 1 e 2). Quando o paciente estiver em prono, não permita que a cabeça fique posicionada somente para um dos lados, modifique a posição de modo que alterne entre ambos os lados.

• Oriente para que o braço não fique solto no espaço quando a criança estiver no colo (Fig3). A mãe pode manter o cotovelo flexionado sobre o peito, mas não por longos períodos de tempo (Fig4).
• Oriente a NUNCA puxar ou levantar a criança pelo braço afetado.
Ensine aos pais a maneira correta de envolvê-lo em cobertas (Fig.5).
2. Atividades da vida diária:
• Para vestir uma blusa ou casaquinho na criança, comece sempre pelo braço afetado e para despir, inicie sempre pelo o braço não afetado.
• Banho e higiene: Orientar a mãe para manter a axila sempre limpa e seca. No banho, apóie o ombro afetado e a escápula com uma mão (evite de deixar o bracinho balançando sem apoio) e lave o bebê com a sua outra mão livre.
• Alimentação: manter sempre o braço afetado fletido sobre o tórax do bebê ao alimentá-lo, e lembrar a mãe para alimentar o bebê tanto pela direita quanto pela esquerda.

3. Mobilização Passiva:
Mobilize suavemente na ADM passiva as articulações do ombro, cotovelo e articulações do punho (estabilizar a articulação proximal e movimentar a distal).

Fase 2: De duas semanas - 4 meses
Objetivos específicos:
A) Melhorar a ADM, Sensibilidade e força muscular.
B) Prevenir encurtamentos musculares
C) Garantir ao aquisição dos marcos de desenvolvimento motor adequados à idade (controle da cabeça, reações de endireitamento).

1. Continuar as mesmas condutas de cuidados domiciliares da primeira fase.
2. Se já houver encurtamento muscular, utilizar de modalidades de calor superficial, durante 15 min (eu pessoalmente nunca fiz calor superficial como pré-cinesioterapia em bebês... se alguém tiver alguma experiência colabore com o Blog!).
3. Exercícios suaves e lentos dentro da ADM disponível devem ser utilizados para manter a flexibilidade das articulações (Fig. 6 e 7). 4. Treinamento motor precoce com atividades adequadas a faixa etária (por favor, respeitem os marcos motores!) devem ser utilizados para incentivar movimento e evitar compensações com padrões de movimento inadequados (Fig8).
5. A estimulação tátil é na extremidade afetada pode ser feita ao se utilizar materiais com diferentes texturas, vibração e técnicas de escovamento para aumentar a percepção tátil do braço afetado.
6. Exercícios de descarga de peso são utilizados para aumentar o input proprioceptivo e co-contração isométrica (Fig9).
Estágio 3: dos 4 aos 6 meses
Objetivos específicos:
A) Aumentar/manter a ADM, sensibilidade e força muscular.
B) Alcançar os marcos motores e habilidades apropriadas à idade (rolar, reações de proteção e alcance).
C) Prevenir contraturas e deformidades articulares.

1. Continuar o mesmo programa dos estágios 1 e 2.
2. Encorajar atividades bimanuais para prevenir a negligência da extremidade envolvida. Principalmente para prevenir o desuso aprendido.
3. Caso seja necessário, pode-se utilizar órteses para prevenir maiores deformidades ou para iniciar os movimentos (Apêndice C do guideline original).
4. Terapia com bolas e rolos podem também ser utilizados para aumentar a mobilidade, força e input proprioceptivo e reações vestibulares, de retificação, equilíbrio, reações de proteção e coordenação (Fig 10 e 11). Observação: Fique atento para alterações circulatórias quando aplicando as órteses, como pontos de pressão vermelhos, edema, dormência ou resfriamento.

Estágio 4: Dos seis meses ao primeiro ano de vida.
Objetivos específicos:
A) Aumentar/manter a ADM, sensibilidade e força muscular.
B) Alcançar os marcos motores e habilidades apropriadas à idade (sentar, engatinhar, ortostatismo e marcha).
C) Prevenir contraturas e deformidades articulares.
1. Continuar o mesmo programa dos estágios 1, 2 e 3.
2. Conforme a criança cresce, a força e a coordenação melhoram pelo uso ativo do braço afetado. Fisio e TO devem estar atentos para utilizar atividades apropriadas ao desenvolvimento de modo a desenvolver e estimular habilidades funcionais específicas (Fig 12 e 13).
3. Embora o uso de eletroestimulação seja controverso e sua eficácia não tenha sido devidamente testada, ela pode ser usada em caso de mau prognóstico (a partir do sexto mês), com Eletro estimulação tipo Galvânica de 15 repetições para evitar a atrofia muscular e aumentar a percepção do membro Ref (1).

Estágio 5: De um a 4 anos.
Objetivos específicos:
A) Alcançar os marcos motores e habilidades apropriadas à idade ( habilidades com jogos e movimentos finos)
B) Prevenir o desuso aprendido.
C) Prevenir contraturas e deformidades articulares.
1. Quando apresenta contratura muscular, utilizar modalidades de calor superficial, durante 15 min. seguido de massagem ou técnica de liberação miofascial (lembrando que se houver alteração da sensibilidade esta conduta dever ser realizada com extrema cautela) .
2. Incentive as atividades bimanuais como jogos nos quais a criança precise segurar uma bola (basquete, queimado), subir uma escada, natação (Fig 14 e 15). Avalie bem o paciente, pois dependendo da gravidade da lesão estas atividades podem ser prejudiciais (principalmente aquelas em que a criança se pendura, como na figura 14 - se eu não tenho bons estabilizadores proximais, corre-se o reisco de uma nova lesão nervosa, desta vez do plexo inferior. Portanto MUITA ATENÇÃO!) .
3. Facilitar as atividades da vida diária e os movimentos finos para aumentar a força e a coordenação do braço afetado e mão.
4. Hidroterapia:
Ele pode ser introduzido nesta fase para evitar a tensão muscular, melhorar o controle muscular, aumentar a ADM, além de ser divertido para a criança.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Antes de iniciar o tratamento, algumas considerações:
1. Se houver luxação de ombro ou cotovelo, a articulação afetada deve ser estabilizada e apenas exercícios em cadeia cinética fechada deverão der utilizados.
2. Em casos de artrite juvenil de ombro, deve ser evitada a compressão articular (aproximação do úmero contra a glenóide) e todos os exercícios deverão ser realizados dentro da ADM livre de dor.
3. Apenas mobilizações suaves devem ser utilizadas quando há lesão dos tecidos moles.
4. Se houver fratura na clavícula, inicie o tratamento após duas semanas de repouso, e uma radiografia recente se faz necessária para confirmar a consolidação da fratura.
5. O tratamento deve ser interrompido se o paciente desenvolver uma doença infecciosa, ferida aberta, ou febre.
6. Modalidades térmicas de tratamento não devem ser utilizadas se houver perda de sensibilidade.
REFERÊNCIAS

PHYSICAL THERAPY MANAGEMENT of obstetric brachial plexus injury - Committee of Physical Therapy protocols, Office of Physical Therapy Affairs, Ministry of Health,
Kuwait.

Guidelines on initial management and referral of Obstetric Brachial Plexus Palsy - Yorkhill Hospital,Glasgow, National Obstetric Brachial Plexus Injury Service
Exercícios de ADM Passiva para criança com PBO

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Revista Saúde Empreende Número 3


Já está disponível a edição n° 3 da revista saúde empreende. As matérias deste número estão particularmente interessantes para quem atende pacientes em consultório e em domicílio, pois abordam a importância da sua imagem profissional para não só atrair novos pacientes, mas também para fidelizá-los ao tratamento.
Destaco também a matéria sobre redes sociais e, é claro, a coluna " não entre em pânico", editada pelo blogueiro que vos fala.
O acesso à revista é livre e gratuito, acessando o site:
http://www.inkover.com.br/revista-saude-empreende/n-3

Valeu pessoal.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Paralisia Braquial Obstétrica

O PLEXO BRAQUIAL
O Plexo Braquial é uma rede de nervos formados a partir das raízes cervicais de C5 a T1, sendo responsável pela inervação motora e sensitiva dos membros superiores. As lesões traumáticas mais comuns são as que acometem o tronco superior (formado pelos ramos ventrais das raízes C5 e C6) e o tronco inferior (formado pelos ramos anteriores de C8 e T1). O objetivo desta postagem não é revisar a anatomia do Plexo Braquial, mas para quem quiser relembrar, recomendo uma visita ao Site Aula de Anatomia. e para quem manja de inglês e quiser impressionar na hora da prova, tem um vídeo no Youtube que ensina a desenhar o plexo braquial em 10 segundos (OBS: o vídeo não dura 10 segundos, este é o tempo que você demora pra desenhar o plexo depois de aprender a técnica)

Pois bem, voltando ao assunto: As lesões do tronco superior são geralmente causadas por trauma. Os exemplos mais clássicos são a queda sobre o ombro (figura1) ou tração do braço no momento do nascimento (figura 2).


FIGURA 1- Queda resultando em afastamento brusco da cabeça em relação ao ombro e consequente lesão do plexo braquial. FIGURA 2- tracionamento das raízes que formam o tronco superior do plexo braquial durante o parto.

Em ambos os exemplos, o mecanismo de lesão foi um afastamento da cabeça em relação ao ombro, causando estiramento das raízes nervosas e conseqüente dano estrutural. Isso sem contar que a lesão nervosa também pode ocorrer devido a lesões por armas de fogo e armas brancas. Na postagem de hoje irei focar somente na paralisia de Erb-Duchenne, deixando para outro dia os casos de lesões traumáticas em adultos.

Paralisia Obstétrica de Erb-Duchenne
Nota Histórica:Em 1861, Guillaume Benjamin Amand Duchenne cunhou o termo “paralisia obstétrica do plexo braquial” após analisar quatro crianças que exibiam quadro idêntico de paralisia dos músculos do ombro e braço. Em 1874, Wilhelm Heinrich Erb concluiu em sua tese sobre lesões do plexo braquial em adultos que a paralisia associada dos músculos deltoid, biceps e subscapular ocorrem devido a lesões das raízes de C5 e C6 ao invés de lesões isoladas de nervos periféricos.

Lesões do Tronco Superior do Plexo Braquial
A lesão do plexo tronco superior que ocorrem em conseqüências de partos difíceis (distocia + tocotraumatismo) com apresentação cefálica é classificada como paralisia obstétrica do tipo Erb-Duchenne.
Aqui vai um parênteses: Não é raro que as mães culpem o obstetra por erro médico. Eu acho importante que nós, fisioterapeutas, tenhamos uma postura cética em relação a estes casos. O que quero dizer é que não devemos crucificar o médico junto com a mãe. Não, não se trata de botar panos quentes, ou de ter uma postura “ética”, mas sim de bom senso. Tente se colocar no lugar do obstetra que faz um parto extremamente trabalhoso. Pode ser que devido às dificuldades do parto, ele tenha tido de escolher, literalmente, entre fazer o parto de uma criança com lesão de plexo, ou fazer o parto de um encefalopata devido hipóxia perinatal. Não estou dizendo que não hajam casos de negligência, imperícia ou imprudência, mas é bom que consideremos que talvez estejamos tratando uma criança com paralisia braquial que escapou de ser um neuropata graças a habilidade de um obstetra.

Sinais e Sintomas
Ao exame físico do lactente, pode ser observado reflexo de Moro assimétrico e RTCA somente para um dos lados, ambos causados pela paralisia muscular. O membro afetado assume uma posição característica: o braço ao lado do corpo, em rotação interna com antebraço estendido e pronado (figura 3A e 3B), conhecida como “postura da gorjeta do garçom” (como se fosse um garçom pedindo discretamente uma gorjeta – eu adoro a criatividade dos neurologistas!). A paralisia do bíceps é a principal causa desta posição.
FIGURA 3A - Postura de "gorjeta do garçom", causada principalmente pela paralisia do bíceps braquial.
FIGURA 3B- Postura de "gorjeta do garçom" em criança com paralisia de Erb


A criança mais velha pode exibir o “sinal do corneteiro” quando solicitada a levar a mão à boca. Acontece que devido a paralisia dos músculos do membro superior, ao tentar elevar o braço, a criança assume uma postura como se estivesse levando uma corneta à boca (não sei se eu já disse, mas estes neurologistas têm uma imaginação muito fértil ! ) Infelizmente não consegui nenhuma imagem deste sinal para ilustrar a postagem.
Com o passar do tempo, pode se desenvolver contratura em rotação interna, a qual pode gerar alterações ósseas secundárias (aumento da retroversão da glenóide) e a longo prazo subluxação posterior do ombro.
Dependendo do grau da lesão, o desuso do membro e alterações do desenvolvimento nervoso e circulatório, podem comprometer o crescimento do membro, acarretando hipotrofia do braço afetado.
Dependendo do grau de lesão, a paralisia obstétrica pode ter indicação cirúrgica, ou se resolver espontaneamente ao longo de alguns meses. Em muitos casos a lesão não tem indicação cirúrgica e o tratamento é conservador com Terapia Ocupacional e/ou Fisioterapia. Neste caso, é importante ter em mente que estamos tratando uma lesão neurológica estável. Ou seja: o nervo já foi danificado e não há recuperação! Nosso trabalho será principalmente o de orientar e posturar, prevenindo contraturas e deformidades, além de junto com a TO potencializar ao máximo a função residual do membro.


VALEU GALERA,

É O BRASIL RUMO AO HEXA ! ! ! ! !

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Efeitos da cinta abdominal na função respiratória de tetraplégicos


Olá pessoal,
Hoje tenho um artigo muito especial para compartilhar. Trata-se de um estudo brasileiro publicado na revista physiotherapy em 2003 e que investigou os efeitos da cinta abdominal sobre a função respiratória de pacientes tetraplégicos na posição sentada e supina.
Este artigo é particularmente interessante porque ele demonstra que o apoio das vísceras abdominais pode ajudar a mecânica respiratória. Além das repercussões óbcias para pessoas com lesão medular alta, me parece razoável supor que podemos extrapolar os resultados deste estudo também para crianças com amiotrofia espinhal e hipotônicos em geral na tentativa de melhorar a eficiência da tosse.

Segue abaixo a tradução livre do resumo, introdução e discussão do trabalho. Quem quiser baixar o artigo original, basta clicar AQUI e quem souber o que é um "sniff test" por gentileza manifeste-se deixando um comentário ;p


EFEITO DE UMA CINTA ABDOMINAL SOBRE A EFICÁCIA DOS MÚSCULOS RESPIRATÓRIOS DE PACIENTES TETRAPLÉGICOS NA POSIÇÃO SENTADA E SUPINO

Effect of an abdominal binder on the efficacy of respiratory muscles in seated and supine tetraplegic patients’
AUTORES: Boaventura, C M, Gastaldi, A C, Silveira, J M, Santos, P R, Guimarães, R C and de Lima, L C .
Physiotherapy. 2003; 89, 5, 290-295


RESUMO:

A lesão medular alta provoca uma diminuição da função respiratória. O uso de cintas abdominais em pacientes tetraplégicos com paralisia dos músculos abdominais têm sido relatado como benéfico.
Dez pacientes com lesão medular cervical (C4 a C7) foram avaliados por um examinador "cego", por meio da medição da pressão inspiratória máxima, pressão expiratória máxima e capacidade vital forçada com e sem a cinta abdominal nas posições supina e sentada em uma seqüência aleatória.
Os valores da pressão inspiratória máxima (-57,25 ± 17,68 cm de H2O), pressão expiratória máxima (24,35 ± 7,28 cm H2O) e capacidade vital forçada (2,35 ± 0,62 litros) foram inferiores ao esperado. Os valores da capacidade vital forçada foram maiores na posição supina do que sentada. A pressão expiratória máxima e a capacidade vital forçada apresentaram os valores mais altos na posição sentada quando a cinta abdominal foi utilizada.
Concluímos, portanto, que uma cinta abdominal melhora a eficácia dos músculos respiratórios por aumentar a pressão expiratória máxima e a capacidade vital forçada quando usado por pacientes tetraplégicos na posição sentada.


INTRODUÇÃO:
As lesões medulares causam alterações motoras e sensoriais, levando não só a dependência física, mas também a dependencia social, psicológica e profissional (Guttmann, 1981).
As lesões traumáticas da medula produzem paralisia dos músculos inervados ao nível da lesão e abaixo. Portanto, lesões altas da medula espinhal causam danos a toda a mecânica respiratória, resultando em alterações musculares e perda de volume e capacidades pulmonares (Mesard et al, 1978; Ledsome e Sharp, 1981; Umphred, 1994).
O declínio da função pulmonar já foi estudado por vários autores. Foram avaliados o Volume Pulmonar (volume de reserva expiratório, volume residual), a Capacidade Pulmonar (capacidade vital, capacidade vital forçada, capacidade pulmonar total) e a Pressão Respiratória (inspiratória máxima e pressão expiratória).
Foram observados uma diminuição no volume de reserva expiratório, capacidade vital, capacidade pulmonar total, pressão inspiratória máxima e pressão expiratória máxima e um aumento no volume residual (Fugl-Meyer e Grimby, 1971; Forner, 1980; Ledsome e Sharp, 1981; Gounden, 1997; Loveridge et al, 1992; Lin et al, 1998; Fujiwara et al, 1999; Van Der Schans et al, 2000; Estenne et al, 2000).
A perda de volume pulmonar está associada com a perda da força muscular abdominal, e os benefícios de usar uma cinta abdominal em pacientes tetraplégicos para ajudar a respiração estão descritos na literatura. Alguns autores demonstram melhora da capacidade vital em determinadas posições e também melhora da pressão transdiafragmática no "sniff test" (Goldman et al, 1986; McCool et al, 1986). No entanto, outros estudos não mostram esses efeitos (Haas et al, 1965; Estenne et al, 1998; Maloney, 1979), e desta forma, o uso de cinta abdominal permanece controverso.
O objetivo desta pesquisa foi avaliar os efeitos da cinta abdominal sobre o desempenho dos músculos respiratórios e na capacidade vital forçada em pacientes tetraplégicos nas posições sentada e supina.

DISCUSSÃO
O presente trabalho avaliou os efeitos da cinta abdominal na musculatura respiratória e volumes e capacidades pulmonares, quando utilizada nas posições sentada e supina em pacientes com lesão medular (C4 a C7).
Quando as posições sentada e supina foram comparadas, os valores da capacidade vital forçada foram maiores na posição supina, sem demostrar melhora adicional quando a cinta era utilizada; e quando comparado o uso ou não-uso da cinta abdominal, a pressão expiratória máxima e a capacidade vital forçada foram maiores com o uso da cinta na posição sentada.
Embora hajam algumas controvérsias, estudos têm demmonstrado os benefícios do uso da cinta abdominal. Os parâmetros utilizados mostram um aumento da capacidade vital (Goldman, 1986), capacidade inspiratória (McCool, 1986) e da pressão transdiafragmática durante o "sniff test" na posição sentada e na supino elevada. Outra recomendação para o uso da cinta abdominal é a melhora da tosse (Celli et al, 1984; Goldman et al, 1986), entretanto, o estudo da Estenne et al (1998) mostra pequena melhora na efetividade da tosse em pacientes tetraplégicos.
Este é o primeiro trabalho que demonstra uma melhora na mecânica respiratória, com um aumento na eficiência dos músculos respiratórios e consequente aumento nos valores de pressão expiratória máxima e capacidade vital forçada com o uso da cinta abdominal na posição sentada, permitindo um melhor fluxo respiratório e melhora da tosse, uma vez que os valores de pressão expiratória máxima foram de 26,4 ± 7,3 cm H2O, que são maiores do que o necessário para iniciar a compressão dinâmica das vias aéreas.
Esta melhora na função pulmonar, no entanto, não apresentou nenhuma melhora nas medidas de pressão inspiratória com o uso da cinta em qualquer postura adotada, estando este achado, de acordo com estudos anteriores (Goldman et al, 1986; McCool et al, 1986; Gounden, 1997).
A maioria dos estudos foram realizados com um número pequeno de pacientes e uma grande variação no tempo decorrido desde a lesão. Isso também ocorre nesta pesquisa e pode contribuir pelos resultados variados observados na amostra.
Depois de usar a cinta, os pacientes foram questionados quanto a sensação durante a sua utilização. Eles relataram maior facilidade em respirar na posição sentada com o uso da cinta. Este tipo de relatos não foi encontrado na literatura. Quando questinados, todos os pacientes relataram facilidade em tosse com o uso da cinta abdominal.
Ao final da pesquisa e com estes resultados discretos, porém benéficos, cintas abdominais foram dadas aos pacientes para uso diário.
Um outro fato a ser considerado é a possível dependência de outras pessoas para a colocação das cintas, mas esta dificuldade também é encontrada no ato de se vestir, e elas podem ser colocados por outra pessoa da mesma forma como qualquer outra peça de vestuário. Alguns pacientes podem aprender a colocar a cinta por si só mesmos.
Relatos de desconforto, efeitos concomitantes, ou efeitos colaterais não foram observados nesta pesquisa, o que está de acordo com outros trabalhos, mostrando que o uso da cinta abdominal é seguro, bem como simples e barato.
Nesta pesquisa, foi demonstrado que as cintas abdominais possuem um efeito positivo sobre a função pulmonar de pacientes tetraplégicos. Elas geraram uma melhoria da capacidade vital forçada, da pressão expiratória máxima na posição sentada, o que sugere que pacientes tetraplégicos poderão beneficiar-se de seu uso, especialmente quando estiverem sentado. Estas cintas também devem ser consideradas em episódios de infecção ou desconforto e quando os pacientes tiverem dificuldade em tossir.


Espero que tenha sido útil

Hasta la vista

Palestra online gratuita sobre tratamento de Alzheimer

Na próxima quarta-feira, dia 23 de junho, às 21:00 horas, a ABRAZ (Associação Brasileira de Alzheimer), por meio do site, Cuidadores na Web estará promovendo uma palestra online e gratuita que terá como tema o Tratamento da Doença de Alzheimer, com o médico Dr. Paulo Canineu, membro da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz), professor de pós-graduação em Gerontologia da PUC-SP.

Quem quiser conhecer mais sobre a iniciativa cuidadores na web acesse:

perfil no twitter
www.twitter.com/cuidadoresnaweb

Comunidade no Facebook
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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Respiração de Cheyne-Stokes

Como prometido, voltei a blogar no mó gás!
Esta semana decidi relembrar e me aprofundar um pouco no estudo dos padrões anormais de respiração. O primeiro que decidi estudar é também o mais clássico em provas da faculdade e de concursos públicos. Trata-se do padrão de Cheyne-Stokes.

RESPIRAÇÃO DE CHEYNE STOKES
A respiração de Cheyne-Stokes (também conhecida como padrão, ritmo ou respiração periódica de Cheyne Stokes) foi descrita inicialmente por John Cheyne, em 1818 em um homem obeso 60 anos com insuficiência cardíaca. Porém, em 1854, este fenômeno foi analisado com muito mais atenção por William Stokes em seu trabalho "The Diseases of the Heart and Aorta". É interessante notar que ambos as observações foram feitas em pacientes com disfunção cardíaca, embora também esteja presente em alguns quadros de lesão neurológica.

Este padrão anormal de respiração é caracterizado por períodos alternados de apnéia e respiração rápida e profunda. O ciclo inicia-se com respirações lentas, superficiais que gradualmente aumentam em amplitude e ritmo e é seguido de um período de apnéia. O período de apnéia pode durar 3 a 30 segundos, daí o ciclo repete-se a cada 45 segundos a 3 minutos. Em sala de aula, é classicamente ilustrada pelo gráfico abaixo.



Entretanto, graças aos milagres da informática, e principalmente a Juán I. Pérez Calvo, do Hospital Universitário Lozano Blesa da Espanha, é possível assistir a um paciente que apresenta este padrão. Na minha opinião, este vídeo é muito mais didático do que qualquer gráfico. Para assistir basta clicar na imagem abaixo.



Este padrão pode ser observado principalmente em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva (ICC) e naqueles que sofreram um Acidente Vascular Encefálico, mas também é visto em outras patologias do Sistema Nervoso Central, como tumores, meningite, encefalite e trauma, assim como em pacientes expostos a altas altitudes.
Pacientes com Respiração de Cheyne-Stokes apresentam um sono fragmentado, com despertares freqüentes e dessaturações. Em pacientes com ICC, pode acelerar a deterioração na função cardíaca e elevar a morte.

Ok Pessoal, quem quiser saber mais, recomendo os seguintes links abaixo:

THE MECHANISM OF CHEYNE-STOKES RESPIRATION. Este é um trabalho publicado no Journal of Clinical Investigation em 1962. Curiosidade histórica.

RESPIRAÇÃO DE CHEYNE-STOKES É POUCO RECONHECIDA NO PACIENTE INTERNADO. Publicado na revista Neurociências em 2004. Interessante principalmente pelas considerações sobre a fisiopatologia da respiração de Cheyne-Stokes.

TRATAMENTO DA RESPIRAÇÃO DE CHEYNE-STOKES EM PACIENTES COM ICC. Um artigo interessante que fala sobre o CPAP, oxigenioterapia e medicamentos para o tratamento da Respiração de Cheyne-Stokes.

Tem também uma tese de Doutorado:
VENTILAÇÃO PERIÓDICA DURANTE VIGÍLIA PREDIZ A RESPIRAÇÃO DE CHEYNE-STOKES DURANTE O SONO EM PACIENTES COM INSUFICIÊNCIA CARDÍACA

Pronto galera, espero que apreciem a postagem!

Vida longa e próspera

sábado, 19 de junho de 2010

Estalar os dedos faz mal?


Ao tentar responder a pergunta inicial “porquê os dedos estalam?”, não poderia imaginar os desdobramentos que este tema teria. No final, percebi que arrumei sarna pra me coçar pois várias outras questões surgiram: Todo ruído articular é causado por cavitação? Estalar os dedos causa artrose ? existe algum benefício em se estalar uma articulação?, Dedo estalado tem gordura trans? e por aí vai...
De fato, eu adoraria responder estas perguntas para satisfazer minha curiosidade (e de muitas outras pessoas), mas este tipo de pesquisa dá muito trabalho e acaba atrapalhando a frequência das postagens do blog. Por causa disso, abordarei hoje somente a questão de se estalar os dedos faz mal, e deixarei os outros temas para serem discutidos aos poucos, ao longo dos próximos meses.


ESTALAR AS ARTICULAÇÕES FAZ MAL? . . . O QUE DIZEM OS CIENTISTAS.

Dois trabalhos publicados buscaram responder esta pergunta. São publicações antigas (The consequences of habitual knuckle cracking. West J Med 1975; e Effect of habitual knuckle cracking on hand function. Ann Rheum Dis 1990), mas que por sorte estão disponíveis on line.
No trabalho publicado em 1975, idosos com o hábito de estalar os dedos foram comparados com aqueles que não tinham este costume. Os autores realizaram exames clínicos e radiográficos em busca de sinais degenerativos articulares como artrose, osteófitos e alargamento ósseo nas articulações metacarpofalangeanas. Esperava-se encontrar uma incidência maior de processos degenerativos nos “estaladores” do que nos “não estaladores”. Mas isso não ocorreu, e a conclusão foi a de que a consequência principal do hábito de estalar os dedos parece ser o efeito irritante causado naqueles que são obrigados a ouvir os cleckes.
No segundo trabalho, publicado em 1990, foram investigados 300 pacientes e também não foram encontrados indícios de que o hábito de estalar os dedos esteja relacionado a alterações degenerativas. No entanto foi observado uma maior incidência de edema nas mãos e redução da força de preensão manual entre os “estaladores”. Acho importante ressaltar que estes resultados devem ser vistos com cuidado, pois pode haver aqui um viés de confundimento. Pois metodologicamente falando, as duas populações (“estaladores” e “não estaladores”) eram bem diferentes, sendo o grupo dos “estaladores” composto por trabalhadores manuais e também tendiam a fumar, beber e roer as unhas mais frequentemente do que os “não estaladores”. Sendo assim, quem me garante que este edema e a redução da força não sejam causados pela interação destes fatores e não pelo estalar de dedos?
É importante ressaltar que estes trabalhos não oferecem respostas definitivas. A única certeza que posso ter é que estalar os dedos é bom demais e me dá um alívio danado!
Ah! antes que eu me esqueça, tem um outro tipo de estalo articular que não é causado pela cavitação, e que pode causar lesões do tipo microtrauma. Este outro ruído é causados pelo ressalto do tendão contra o osso. Quer saber como diferenciar um do outro? Muito simples:
Se o estalo foi causado por cavitação, você vai precisar esperar uns 30 minutos até estalar novamente a articulação. Se você puder causar o estalo repetidas vezes sem necessidade de esperar, então é possível que seja causada por algum tendão resvalando em contato com o osso e, neste caso, a repetição do estalo pode causar uma inflamação no tendão ou seja: uma tendinite.
Ok pessoal, minhas moini férias estão acabando e a partir de segunda-feira volto a postar com a frequência de sempre.
Hasta la vista amigos