Olá Fisionautas,
Quem acompanha a série de TV “Dr. House” sabe que o personagem
principal, Gregory House (Hugh Laurie), caminha com a ajuda de uma bengala
devido a um infarto sofrido na perna direita que resultou em necrose muscular e
muita dor, além de deixá-lo viciado em analgésicos e com um mau humor crônico.
Decidi dar um voto de confiança aos roteiristas da série House e ao invés de
baixar a lenha reclamando da falta de veracidade do roteiro, fui investigar o
que a literatura científica tem a dizer sobre qual o melhor lado para que o Dr.
House use a bengala.
COMEÇANDO PELO COMEÇO…Para um(a) fisioterapeuta, a mera informação de que o House sofreu
uma necrose muscular na coxa é muito vago, pois não indica qual ou quais
músculos foram afetados. Os roteiristas não informam nada sobre força muscular, amplitude de
movimento, instabilidade, coordenação e nem em quais movimentos a dor surge (também isso seria querer demais, né?). Desta forma nos faltam informações básicas para estabelecer um diagnóstico
cinesiológico. Sem estas informações não há como fazer uma busca específica na
literatura. Pelo fato do House apoiar a mão na coxa e não no joelho, decidi me
basear em artigos que investigaram o uso de bengala em pacientes com afecções
no quadril.
Fiz uma busca no Google para encontrar artigos publicados em
revistas especializadas utilizando as palavras-chave: muletas+ipsilateral+contralateral+marcha+pdf,
tanto em português quanto inglês.
POR QUE USAR BENGALA ?
Dispositivos de auxílio da marcha tais como muletas e bengalas são
indicados para pacientes com dor e fraqueza no membros inferiores. As
principais funções destes equipamentos são aumentar a base de apoio, melhorar o
equilíbrio e dividir a carga de peso corporal com os membros superiores.
Quando utilizado em um só lado do corpo, uma bengala pode reduzir
o estresse sobre o membro inferior contralateral e diminuir o gasto energético
necessário para caminhar. No entanto, pessoas com instabilidade no membro inferior
optam por utilizar a bengala no mesmo lado do membro afetado, justamente para
garantir mais estabilidade durante a fase de apoio da perna afetada. Como eu
disse anteriormente, não sei se o problema do House é somente dor/fraqueza ou
se envolveria também instabilidade.
PACIENTES COM ARTROSE DE QUADRIL – QUAL O MELHOR LADO PARA SE USAR
A BENGALA ?
Encontrei um trabalho em português que apresenta um
relato de caso no qual se comparou as características espaço-temporais da
marcha de um paciente com osteoartrose no quadril esquerdo quando ele caminhava
utilizando a bengala no lado contralateral e sem bengala. Os principais
resultados indicam que o comprimento de passo direito e esquerdo, bem como o
comprimento total do ciclo, foram superiores com o uso da bengala durante a
marcha; os autores concluíram que o uso da bengala contralateral tornava a
marcha do indivíduo estudado mais eficiente.
Este artigo é bem simples, ajuda um pouco no nosso raciocínio mas não ajuda
muito a encontrar a resposta a nossa dúvida. Primeiro porque se trata do estudo
de um único indivíduo com artrose de quadril bastante avançada, e isso por si
só impede a generalização dos resultados (nada me garante que outros pacientes
com artrose de quadril vão se comportar da mesma forma que o do estudo). Em
segundo lugar, foi comparada somente a marcha sem bengala e com bengala
contralateral. No nosso caso, desejamos saber se a bengala usada contralateral
a perna afetada é mais eficiente do que a usada no mesmo lado.
Pra ser bem cri-cri do ponto de vista da metodologia científica, o que podemos
tirar de útil deste estudo é que o uso da bengala resultou em melhora dos
parâmetros temporo-espaciais da marcha quando comparado a marcha sem bengala, e
que TALVEZ isto aconteça em outras pessoas com artrose unilateral de
quadril.
Clique no link acima para ser direcionado para o artigo
PACIENTES COM PRÓTESE DE QUADRIL – QUAL O MELHOR LADO PARA SE USAR A BENGALA ?
Este trabalho focou na avaliação da atividade muscular
dos abdutores de quadril utilizando eletromiografia de superfície e mensuração
da força aplicada sobre a bengala. Foram avaliadas 24 pessoas com prótese
unilateral de quadril enquanto caminhavam [1] sem bengala [2] com a bengala no
mesmo lado da prótese, [3] com a bengala no lado oposto a prótese e [4] novamente
contralateral a prótese, porém empurrando a bengala pra baixo com “força
próxima do máximo”
Este estudo foi conduzido com pessoas com artroplastia de
quadril unilateral. Quando instruídos a deambular utilizando a bengala de uma
forma confortável, foi gerada em média uma força correspondente a 10% do peso
corporal (isto é: uma pessoa com 80Kg descarregou 72Kg sobre a perna afetada). Com
relação a atividade muscular, o EMG evidenciou uma redução de 31% na ativação
dos músculos abdutores de quadril quando comparado a deambulação sem bengala.
Quando instruídos a deambular empurrando a bengala pra baixo com “força próxima
do máximo”, a redução da descarga de peso chegou a 19,8% do peso corporal. Este
esforço mais árduo produziu, em média, uma redução de 42,3% na EMG dos músculos
abdutores de quadril, mais uma vez comparado a deambulação sem bengala.
Este trabalho é bem legal, pois tem um grupo controle (marcha sem bengala) e 3
situações experimentais (com bengala do mesmo lado, com bengala contralateral e
bengala contralateral aplicando força máxima sobre a bengala).
Os resultados nos levam a uma conclusão interessante: a de que não é
necessariamente errado usar uma bengala no mesmo lado do membro afetado, pois
mesmo apoiada do mesmo lado, a bengala é capaz de aliviar a descarga de peso e
diminuir a sobrecarga sobre os abdutores. Porém quando apoiada no lado
contralateral ao quadril protético, a efetividade na redução da descarga e na redução da demanda de força sobre os
abdutores de quadril é muito maior.
Esta conclusão é corroborada pelo trabalho “ImmediateEffects of Contralateral and Ipsilateral Cane Use On Normal Adult Gait”, no
qual foram investigados o pico de força vertical, e variáveis espaço-temporais
da marcha de indivíduos hígidos, isto é, sem problemas nos quadris, enquanto
utilizavam bengala do mesmo lado e contralateralmente. Neste estudo os autores concluíram que as
duas formas de levar a bengala reduzem as forças sobre o membro inferior, porém
a contralateral é mais eficiente.
Há ainda um outro trabalho interessante que concluiu que
em pacientes com artrose de joelho o uso de muletas no membro contralateral
também é preferível ao uso ipsilateral só que com um agravante: Os resultados
deste estudo sugerem que em indivíduos com artrose de joelho, o uso de bengala
ipsilateral pode ser mais prejudicial do que não usar bengala alguma. Isso
porque a bengala no mesmo lado da lesão aumentar as cargas angulares sobre o
joelho, o que pode acelerar a degeneração.
Changes in knee
moments with contralateral versus ipsilateral cane usage in femaleswith knee osteoarthritis
O QUE APRENDEMOS COM ISSO ?
Bem, a primeira coisa que posso concluir é que parece que
eu não tenho nada melhor pra fazer no meu tempo livre do que ficar vendo TV e
arrumando sarna pra me coçar.
A segunda coisa que aprendi foi que com relação ao House, me parece que os roteiristas não estão tão errados assim.
Dependendo do problema e da preferência (chatice) do House, a bengala usada do
mesmo lado pode sim aliviar a sobrecarga e ajudá-lo a andar, muito embora
usá-la no lado contralateral seja muito mais eficiente.
Pois bem pessoal, é isso aí.
Já que estamos no carnaval e o assunto é bengala, gostaria de terminar a postagem com uma reflexão.








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