ATENÇÃO! Este é um texto baseado em pesquisa bibliográfica e não se destina à informação de pais ou pessoas com Amiotrofia Espinhal, trata-se de um relato técnico voltado para estudantes e profissionais da área da saúde.
Para mais informações, acesse a página sobre Amiotrofia da Rede Sarah ou a página da Associação Brasileira de Amiotrofia Espinhal
SALBUTAMOL PARA O TRATAMENTO DE AMIOTROFIA ESPINHAL?
Recentemente fiquei sabendo que o Salbutamol está sendo
utilizado em pacientes com Amiotrofia
Muscular Espinhal (AME) e alcançando resultados bastante animadores.
Talvez neste momento você esteja se perguntando que tipo
de substância alucinógena eu andei ingerindo para escrever esta postagem.
Afinal de contas todo mundo sabe que o Salbutamol é um ß2 agonista utilizado
para o tratamento do broncoespasmo e não tem nada haver com doenças genéticas.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Pois é galera, por mais estranho que possa parecer, os
resultados de alguns estudos utilizando salbutamol em pacientes com AME sugerem
um possível efeito benéfico sobre o curso da doença. Embora o mecanismo de ação
do salbutamol sobre o sistema musculoesquelético ainda não seja totalmente
compreendido, alguns experimentos demonstram que o salbutamol pode ajudar no
tratamento da AME.
Como você
deve saber a AME é uma doença neuromuscular genética caracterizada por
fraqueza muscular progressiva. Esta fraqueza muscular ocorre devido a mutações
no gene responsável pela síntese completa da proteína SMN (survival motor
neuron).
Detalhe importante: Nos seres humanos existem duas cópias
diferentes deste gene: O gene SMN1 e o gene SMN2. Porém apenas a cópia SMN1
apresenta mutações homozigóticas ou exclusões em pacientes com AME, enquanto o
gene SMN2 não parece ser afetado. Em outras palavras: problemas no SMN1 causam
a AME, e o SMN2 é quem segura a onda nestes casos pois a quantidade de cópias
destes gene no cromossoma afeta a gravidade da AME.
Assim, teoricamente o gene SMN2 poderia funcionar no
lugar do SMN1. Portanto, qualquer intervenção que seja capaz de aumentar o
nível de transcrição funcional do SMN2 poderia muito bem ser uma abordagem eficaz
para o tratamento da Amiotrofia Espinhal Progressiva (ênfase em tratamento, pois botar o SMN2 pra trabalhar não é sinônimo de cura).
Agora é que a história começa a ficar interessante de
verdade. Em um estudo de 2008 revelou que o salbutamol
é eficaz no aumento dos níveis de transcrição completa do gene SMN2 in vivo. Neste
estudo, os pesquisadores administraram salbutamol a 12 pacientes com AME, e
mediram os níveis de SMN2 em 3 momentos (0, 3 e 6 meses). Os níveis de SMN2
estavam significativamente aumentados em todos, exceto três pacientes, ao fim
de 3 meses (aumento médio de 48,9%), e em todos os pacientes após 6 meses (média
de 91,8%). Eles também demonstraram que os pacientes com mais cópias do gene
SMN2 (alguns pacientes tinham três cópias, outros tinham 4) mostraram uma maior
resposta ao tratamento salbutamol.
FONTE: (Salbutamol increases SMN mRNA and protein levels in spinal muscular atrophy cells Angelozzi et al. J Med Genet. 2008 Jan;45(1):29-31.)
FONTE: (Salbutamol increases SMN mRNA and protein levels in spinal muscular atrophy cells Angelozzi et al. J Med Genet. 2008 Jan;45(1):29-31.)
MAS ISSO FUNCIONA NA PRÁTICA?
A grande pergunta que fica depois desta explicação é: “Será que o aumento de cópias do SMN2 é o suficiente para gerar algum benefício clínico a pacientes com AME?”
Para responder a esta pergunta temos alguns estudos que
demonstram que ao final de 12 meses de uso, os pacientes apresentaram melhora
na função respiratória e no desempenho obtido na escala Hammersmith (escala
específica para avaliar função motora em pacientes com AME).
Acho importante enfatizar que este tratamento ainda é
experimental e no Brasil praticamente restrito a centros de pesquisa de
universidades. Espero que nos próximos anos as pesquisas comprovem a segurança
e a eficácia deste medicamento e que logo ela seja reconhecida como forma de
tratamento da AME.
REFERÊNCIAS



















