quinta-feira, 24 de outubro de 2013

PROVA COMENTADA - INSS - FISIOTERAPEUTA 2013

Olá Fisionautas!
Conforme prometido, cá estou eu na minha postagem semanal. desta vez trouxe o comentário das primeira 10 questões da prova anulada da Funrio. As provas para fisioterapia foram anuladas para os candidatos que concorrem para vagas na Superintendência Regional Nordeste e Superintendência Regional Sul. De qualquer forma, aponto aqui algumas questões que cebem recurso para serem anuladas. 
Desejo boa sorte com a nova prova para o pessoal do Sul e Nordeste
Vai lá.

Questão 51 - A maioria dos estudos demonstrou efetividade na redução nos níveis de vários fatores de risco para a doença coronariana,exceto
A) Triglicerídeos.
B) LDL-colesterol e HDL-colesterol.
C) Intolerância à glicose.
D) Colesterol total.
E) Pressão arterial sistólica e diastólica.

GABARITO: Alternativa B
COMENTÁRIO:
Embora a redação desta questão esteja um pouco confusa. Mas com um pouco de boa vontade, é possível perceber que a pergunta diz respeito a identificação de fatores de risco de doença coronariana, mais especificamente àqueles cuja redução não é considerado como fator de proteção.
Vou começar a análise das alternativas relembrando o conceito de dislipidemia. Basicamente, a Dislipidemia é a presença de níveis elevados ou anormais de lipídios e/ou lipoproteínas no sangue. O risco de doença coronariana aumenta significativamente com valores elevados de Colesterol Total, triglicerídeos e LDL. A partir desta informação, podemos considerar que as alternativas A e D são verdadeiras; isto é: sua redução reduz o risco de doença coronariana. 
A Pressão Arterial é outra variável que quando reduzida, também reduz o risco de doença coronariana, assim, a alternativa E também é verdadeira.
A ointolerância a glicose ou pré-diabetes é considerado um fator de risco. Na medida em que você reduz a intolerância à glicose, você também reduz os riscos de eventos cardíacos. Portanto agora só nos resta analisar a alternativa B.
Já vimos que a redução dos níveis de LDL estão associados a redução de risco, porém com relação ao HDL, ocorre o inverso; isto é: o risco aumenta à medida que seus valores diminuem. Desta forma, podemos concluir que a alternativa B é a única que contém uma variável (HDL) que quando em níveis reduzidos, aumenta o risco de doença coronariana.

FONTE:
Consenso Brasileiro Sobre Dislipidemias:  Detecção, Avaliação e Tratamento - Sociedade Brasileira de Cardiologia  http://publicacoes.cardiol.br/consenso/1994/6301/63010014.pdf

Avaliação dos fatores de risco para doença arterial coronariana em pacientes de São Caetano do Sul segundo o Escore de Framingham e sua relação com a síndrome metabólica. http://www.cepsanny.com.br/pdf/v1n1a2.pdf


Questão 52 - O método hidroterapêutico que incorpora as técnicas de facilitação neuromuscular proprioceptiva (FNP) denomina-se
A) Halliwick.
B) Ruoti.
C) Watsu.
D) Anéis de Bad Ragaz.
E) Kabat Modificado.

GABARITO: Alternativa D

COMENTÁRIO:
Esta é uma questão que considero fácil, mas que é bem interessante de comentar pois permite abordar as 3 principais técnicas de hidroterapia. Mas antes de apresentar as técnicas, preciso excluir as alternativas B e E, pois referem-se a técnicas que não existem.
International Halliwick Association define o conceito Halliwick como: "uma abordagem para ensinar todas as pessoas, em particular às com deficiência, atividades aquáticas, movimentação independente na água e a nadar. Portanto, sem ligação direta com os conceitos de PNF.

O Watsu, também denominado “Water Shiatsu” trata-se de um método originado a partir do Zen Shiatsu e consiste em alongamentos passivos, massagens e mobilizações articulares bem como aplicação de pressão sobre pontos de acupuntura. Este método também não tem ligação com os conceitos utilizados no PNF.
Sobra, portanto, a alternativa D. O método dos anéis de Bad Ragaz (ou simplesmente Bad Ragaz, ou ainda como também é conhecido na novela das 9 pelo personagem Félix: “método do Anel Pega-Rapaz”), consiste na associação de flutuadores e exercícios funcionais baseados no conceito PNF.

FONTE:
Conceito Halliwick inclusão e participação através das atividades aquáticas funcionais  http://www.actafisiatrica.org.br/detalhe_artigo.asp?id=468 


Efeitos do método watsu na flexibilidade e na autonomia funcional de idosas senescentes  http://www.unama.br/novoportal/ensino/graduacao/cursos/fisioterapia/attachments/article/133/efeitos-do-metodo-watsu-na-flexibilidade.pdf



Questão 53- Sulfato de Magnésio, Salicilatos, Iodo e Óxido de Zinco são substâncias empregadas no tratamento dos espasmos musculares, nas mialgias agudas ou crônicas, nos processos inflamatórios e nas úlceras cutâneas, através da iontoforese, quando colocadas, respectivamente, nos eletrodos de polaridade
A) NEGATIVO – POSITIVO – NEGATIVO – POSITIVO
B) NEGATIVO – NEGATIVO – POSITIVO – POSITIVO
C) POSITIVO – NEGATIVO – NEGATIVO – POSITIVO
D) POSITIVO – POSITIVO – NEGATIVO – NEGATIVO
E) NEGATIVO – POSITIVO – POSITIVO – NEGATIVO

GABARITO: Alternativa  C
COMENTÁRIO:
Foi difícil encontrar a resposta desta questão. Após muito pesquisar na internet, finalmente encontrei uma tabela que informava a polaridade das substâncias citadas. A tabela faz parte do manual de um equipamento de eletroterapia. Como se trata de decoreba, não faz sentido eu repetir o gabarito, mas quem quiser (realmente) se dedicar a decorar a polaridade e a indicação dos fármacos utilizados na iontoforese, recomendo utilizar a tabela que está na página 66 do manual do equipamento, disponível no site: http://www.cappefisio.com.br/stimulus-r.pdf ..   

Questão 54 -  Pode-se concluir pela Avaliação da Função Pulmonar que as reduções de todos os volumes pulmonares e de todas as capacidades pulmonares estão associadas a distúrbios
A) metabólicos.
B) obstrutivos.
C) infecciosos.
D) restritivos.
E) obstrutivos e restritivos de qualquer natureza.

GABARITO: Alternativa D

COMETÁRIO:
Os distúrbios ventilatórios avaliados nos testes de função pulmonar são classificados em obstrutivos, restritivos e mistos. Assim, logo de cara, podemos excluir as alternativas A e C. Pacientes com distúrbios obstrutivos apresentam limitação ao fluxo aéreo enquanto os distúrbios restritivos reduzem os volumes e capacidades. O Derrame pleural é um bom exemplo de distúrbio restritivo que podemos utilizar para entender este conceito. Com o derrame pleural, ocorre redução da expansibilidade torácia, você tem líquido na cavidade pleural que impede os alvéolos de se inflarem completamente. É fácil entender que quanto maior o derrame pleural, menor o volume de ar que entra no pulmão acometido. Se realizarmos um teste de função pulmonar, observaremos uma redução em todos os volumes e capacidades pulmonares, que será mais evidente em derrames mais volumosos.
 


Questão 55 - O Grande Dorsal, músculo de alta relevância biomecânica, clínica e terapêutica, tem significativa participação em vários movimentos, exceto
A) Elevação da Pélvis.
B) Extensão do Ombro.
C) Rotação Interna do Ombro.
D) Adução do Ombro.
E) Rotação Externa do Ombro.

GABARITO: Alternativa E

COMENTÁRIO
Esta questão permite uma resolução  interessante. O candidato (ou candidata) que não conseguir relembrar as ações do Grande Dorsal, pode aumentar as chances de acertar a questão no chute. Basta observar que as alternativas C e E são contraditórias: O Grande Dorsal não faz simultaneamente rotação interna e externa do ombro. Assim, teríamos 50% de chance do chute acertar o gabarito.   



Questão 56 - Há evidências de que a prática de atividade física moderada e regular, iniciada precocemente, reduz no idoso as doenças abaixo, exceto
A) Câncer de cólon.
B) Osteoporose.
C) Câncer de próstata.
D) Esclerose múltipla.
E) Diabetes tipo II.

GABARITO: Alternativa D

COMENTÁRIO:
Geralmente nos lembramos que o exercício físico é bom para o coração, porém seus efeitos não se limitam ao sistema cardiovascular. A atividade física regular é de extrema importância para os idosos. Exercícios regulares podem influenciam a manutenção das atividades ósseas normais e podem aumentar significativamente a densidade mineral óssea. Com relação a Diabetes, é bem conhecido o fato que as atividades físicas ajudam no controle glicêmico e funcionam como fator de proteção contra o desenvolvimento de Diabetes. O exercício físico regular também tem efeito protetor contra diversos tipos de câncer, no entanto , esta relação de prevenção não é estabelecida com relação a Esclerose Múltipla, em parte devido ao fato de ser uma patologia relativamente rara, e ainda sem etiologia definida. 

Questão 57 - Na avaliação geral das funções físicas do paciente acometido por acidente vascular encefálico, podemos quantificar as atividades de vida diária básicas através do Índice de
A) Katz.
B) Pearl.
C) Kreutzer.
D) Apgar.
E) Moore.

GABARITO: Alternativa A

COMENTÁRIO:
O Índice de Independência nas Atividades de Vida Diária, foi desenvolvido para medir as Atividades de Vida Diária de pacientes com doenças crônicas. O índice apresenta três gradientes, cujos extremos são: totalmente independente e dependente. Avalia atividades como o tomar banho, vestir-se, alimentar-se e levantar-se da cama ou de uma cadeira, entre outros. Ah! E antes que alguém me escreva para lembrar que a atuação nas AVD'S é ato privativo do TERAPEUTA OCUPACIONAL, normatizada pela resolução 316 de 2008 do COFITTO, lembro que eu estou apenas comentando uma prova. Se alguém achou ruim e quiser reclamar, recomendo que faça diretamente a organização do concurso.
Fonte: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v41n2/20.pdf

Questão 58 - O “Teste de Ober” avalia a presença da contratura do(s)
A) manguito rotador.
B) isquiotibiais.
C) adutores do quadril.
D) abdutores do ombro.
E) músculo externo da grande fáscia e do feixe iliotibial.

GABARITO: Alternativa E

COMENTÁRIO:
O teste de Ober é utilizado para avaliar o encurtamento do trato iliotibial. Neste teste, o indivíduo deve ser posicionado em decúbito lateral, com a perna inferior fletida no quadril e joelho, o suficiente para retificar a lordose lombar, e o joelho da perna superior deve ser fletido a 900. Após ter sido realizado o posicionamento adequado, o examinador deve segurar com uma das mãos o tornozelo da perna superior e com a outra estabilizar o quadril e, em seguida, abduzir e estender esta perna até a coxa se encontrar alinhada com o corpo. Então, é permitido que a coxa caia em direção à superfície nesse plano e o teste deve ser interpretado a partir da quantidade de adução do quadril


Questão 59- As úlceras crônicas podem ser tratadas com estimulação elétrica para fins de acelerar sua cicatrização através de algumas modalidades de correntes elétrica, exceto a seguinte corrente:
A) Contínua de baixa amplitude.
B) Pulsadas monofásicas de alta frequência.
C) Pulsadas monofásicas de baixa frequência.
D) Pulsadas bifásicas de baixa frequência.
E) Ultrassom Pulsátil.

GABARITO: alternativa B

COMENTÁRIO:
Esta questão é controvesta, e na minha opinião deveria ser anulada por dois motivos:
#1- Entre as alternativas temos o Ultrassom, que embora seja utilizado para acelerar a cicatrização tecidual, ele não é corrente elétrica, esta alternativa pode induzir o candidato ao erro (mas como veremos a seguir, o próprio gabarito está errado).
#2 – A eletroestimulação de alta voltagem consiste em pulsos gêmeos, monofásicos, unidirecionais, que se elevam instantaneamente e decaem exponencialmente em alta voltagem, que promovem o aumento do fluxo sanguíneo, fagocitose, melhora da oxigenação, redução do edema, atração e estimulação de fibroblastos e células epiteliais, síntese de DNA, mitose celular, controle de infecção, aumento da produção de ATP, melhora do transporte nas membranas, auxílio na organização da matriz de colágeno, estimulação da contração da ferida com migração de células da epiderme para o centro da úlcera. Ou seja:a alternativa B é uma forma eficiente de promover a cicatrização tecidual, e portanto o gabarito é incoerente.
Fonte: USO DA ELETROESTIMULAÇÃO DE ALTA VOLTAGEM NA CICATRIZAÇÃO DE ÚLCERAS VENOSAS  -  disponível para download clicando [[[[[AQUI]]]]]]:

Questão 60 - A abordagem cinesioterapêutica de melhor eficácia para redução das contraturas moderadas ou graves nos amputados transfemural ou transtibial consiste na seguinte atividade:
A) Exercícios ativos livres.
B) Exercícios ativos resistidos.
C) Alongamento passivo.
D) Alongamento passivo após aplicação de calor.
E) Alongamento por facilitação neuromuscular proprioceptivo.

GABARITO: Alternativa E

COMENTÁRIO:

Eu confesso que não consegui encontrar um livro ou artigo que demonstre a superioridade do PNF sobre as demais técnicas listadas. 

sábado, 19 de outubro de 2013

Complicações cardíacas na Distrofia Muscular de Duchenne

ATENÇÃO!!!
O conteúdo desta postagem é direcionada a estudantes e profissionais de saúde.
Para orientações quanto ao acompanhamento da distrofia muscular, acesse o site da Associação Brasileira de Distrofia Muscular  


Olá Fisionautas,
Quando decidi escrever um blog de fisioterapia o meu maior objetivo era o de tentar lançar um olhar diferenciado sobre alguns assuntos relacionados com a fisioterapia e reabilitação. Acredito que esta postagem exemplifica bem o espírito desta iniciativa. Hoje vou falar sobre uma comorbidade comum na Distrofia Muscular de Duchenne (DMD), porém muito pouco falada: A disfunção cardíaca em pacientes com DMD.
Um dos aspectos interessantes deste assunto é que a disfunção cardíaca em pacientes com DMD só se tornou relevante devido a maior sobrevida desta população, causada principalmente pelo prolongamento da vida destes pacientes.

A DISTROFIA MUSCULAR DE DUCHENNE
Só pra relembrar; A DMD é uma doença hereditária progressiva, de herança recessiva ligada ao cromossomo X que afeta o gene responsável pela síntese da distrofina. A distrofina é uma proteína que ajuda na estabilização da membrana celular dos músculos esqueléticos e também dos músculos cardíacos. Como conseqüência, pacientes com DMD apresentam células musculares muito frágeis.
A fraqueza muscular progressiva e as complicações respiratórias são os aspectos mais evidentes e os principais focos de intervenção dos fisioterapeutas. A melhoria dos cuidados está gerando uma queda na incidência de mortes por insuficiência respiratória na DMD, ao passo que as mortes por acometimento cardíaco estão se tornando cada vez mais freqüentes. Fisioterapeutas que atuam com crianças e adolescentes precisam estar familiarizados com as repercussões cardíacas da DMD.  


COMO O CORAÇÃO É AFETADO NA DISTROFIA MUSCULAR DE DUCHENNE
O envolvimento cardíaco na DMD é freqüente, insidioso e está presente em aproximadamente 80% dos pacientes. Como estes pacientes estão sujeitos a acentuada restrição de mobilidade, mesmo que estejam com disfunção sistólica acentuada, os primeiros sintomas de disfunção cardíaca podem demorar a se manifestar – o que é ruim, pois quando surgem o coração pode já estar bastante comprometido - Os sintomas de disfunção cardíaca podem ser vagos e inespecíficos, como fadiga, perda de peso, vômito, distúrbios do sono. Estes pacientes freqüentemente desenvolvem arritmias e podem apresentar bloqueio AV completo associado a disfunção sistólica grave no estágio final da doença (para maiores detalhes acesse:  )
No coração, a DMD está relacionada a substituição progressiva de cardiomiócitos e do sistema de Purkinje por tecido conjuntivo, fibrose ou por gordura. Estudos histológicos têm demonstrado que fibras cardíacas de Purkinje apresentam necrose similar à notada nos músculos esqueléticos

A detecção precoce de cardiomiopatia é importante, pois a instituição de  terapias médicas cardioprotetores pode retardar o remodelamento cardíaco adverso e atenuar sintomas de insuficiência cardíaca nestes pacientes.
LIÇÕES:

Muito bem amiguinhos e amiguinhas, como os fisioterapeutas são os profissionais de saúde que certamente mais tem contato com a criança com DMD, é nosso dever orientar a família. Desta forma, na minha opinião, a grande lição desta postagem é aseguinte: 

Os sintomas cardíacos são difíceis de se identificar em crianças e adolescentes com DMD, assim, podemos orientar a família a ter o acompanhamento preventivo de um cardiologista, mesmo antes da piora dos sintomas respiratórios.

domingo, 13 de outubro de 2013

Mitos e Lendas da Fisioterapia - Dor articular e Mudanças no tempo, existe relação?

“- Minha artrose sempre dói quando o tempo vira”.
Provavelmente você conhece alguém que jura ser capaz de fazer previsões meteorológicas a partir da dor no joelho ou em alguma outra parte do corpo. Mas será que existe alguma explicação científica plausível para justificar este fenômeno? 

Apesar de parecer um assunto banal, estamos na verdade diante de uma questão bastante complexa pois se trata de investigar uma relação de causa e efeito. Diga-se de passagem, uma das mais difíceis de se comprovar.
A pergunta primordial “Mudanças no tempo geram dor em pessoas com problemas articulares?” (daqui em diante chamarei de alterações meteorológicas) esconde uma série de vieses e armadilhas, como por exemplo: o que entendemos por mudanças meteorológicas? devemos considerar apenas a relação da dor com a presença de chuva ou também a mudança de temperatura (tanto para frio quanto para calor)? mudanças da pressão atmosférica? acúmulo de cargas elétricas na atmosfera? fases da lua? raios cósmicos? flutuações do campo magnético da Terra? Ou será que devemos ver tudo isso e mais o horóscopo chinês do dia? Além disso, de quais problemas articulares estamos falando? traumas, doenças reumatológicas ou doenças degenerativas?
Uma outra armadilha bem mais sutil envolve a percepção seletiva: Será que as pessoas associam dor e mudança meteorológica simplesmente  por estarem mais atentas a dor quando o tempo vira, muito embora também sintam dor mesmo com o tempo estável? Ficou meio confunso, né? Vou tentar explicar melhor com um outro exemplo: É um fenômeno relativamente bem conhecido o fato que mulheres grávidas relatam perceber outras mulheres grávidas em todos os lugares. Isso acontece por causa da percepção seletiva. Grávidas ficam mais atentas a outras mulheres na mesma condição. aplicando este raciocínio a questão das dores durante mudanças meteorológicas, o questionamento passa a ser: será que as pessoas ficam mais atentas ao surgimento de dor durante a mudança meteorológica?

Hipóteses e explicações:
Existem algumas hipóteses que tentam explicar fisiologicamente o porquê pessoas com problemas articulares sentem dor com a mudança do tempo. Vamos ver algumas:
#1- A mais tradicional refere-se a pressão atmosférica. Se temos uma articulação propícia ao edema (como no caso de trauma recente, doenças reumatológicas ou artrose), uma queda na pressão atmosférica teria um efeito sobre a articulação, permitindo um extravasamento de líquidos (efeito contrário da hidroterapia, quando o aumento da pressão externa ao corpo, preveniria os edemas). Como existem terminações nervosas nos tecidos, ao edemaciar, estes nervos seriam estimulados gerando dor.
#2 – Queda na temperatura também pode causar dor, pelo fenômeno de Raynaud. O frio geraria uma vasoconstricção, mais uma vez afetando as terminações nervosas e gerando dor.
#3 – Uma explicação mais holística e mais elegante diz que pessoas idosas ou com restrição ao movimento tendem a evitar sair de casa (algumas vezes evitam sair da cama também) quando chove ou quando está frio. Sedentarismo é um fator reconhecidamente relacionado a piora das dores de pacientes com doenças reumatológicas.
#4 - Uma quarta explicação faz referência a dor nos ossos fraturados. Diz que o foco de fratura sofre dilatação e constricção com as mudanças da temperatura ambiente (igualzinho uma viga de construção civil). Na minha opinião (posso até estar errado, mas neste momento me permito uma certa arrogância) esta explicação é muito viajante, pelo simples fato do interior do corpo manter sua temperatura interna relativamente constante.   


O que a literatura científica diz
Fiz uma busca simples no Google com os seguintes termos: Wheather+Pain+Osteoarthritis+pdf   e uma segunda busca com os termos: Dor+Artrose+”mudança de tempo”+pdf.
Encontrei vários artigos, mas para não alongar muito esta postagem, vou comentar apenas os dois artigos recentes. Um sobre artrite e outro sobre fibromialgia. Mas no final da postagem tem um link para os outros trabalhos pesquisados.

Influência de elementos meteorológicos na dor de pacientes com osteoartrite: revisão da literatura
 http://www.scielo.br/pdf/rbr/v51n6/v51n6a08.pdf
Neste artigo os autores analisaram 8 artigos envolvendo osteoartrose e artrite reumatóide, mas não foi possível observar um consenso com relação ao efeito das alterações meteorológicas. Um trecho interessante da discussão vale a pena ser destacada: “Na literatura visitada, o maior erro no desenho do estudo, além do tamanho amostral, foi a impossibilidade de manter os indivíduos participantes desinformados sobre as variações meteorológicas do período em que deveriam responder ao questionário. Presume-se que os indivíduos, em algum momento, tenham tomado conhecimento das condições e previsões do tempo pelos meios de comunicação. Essa informação poderia ter se refletido inconscientemente na propensão a relatar a dor da osteoartrose”
Os autores relatam também que apesar dos resultados conflitantes, as pesquisas mais recentes apontam para a existência de relação entre  mudanças climática e dor.

Influence of Weather on Daily Symptoms of Pain and Fatigue in Female Patients With Fibromyalgia: A Multilevel Regression Analysis (somente abstract) 
Este trabalho conclui que existem mais evidências contra do que a favor da influência de mudanças meteorológicas na dor e fadiga de mulheres com fibromialgia, muito embora algumas das pesquisadas pareçam ser mais sensíveis a alterações climáticas, esta não parece ser uma característica comum a toda a amostra de pacientes pesquisadas.


Conclusão
As pesquisas não são conclusivas. Mas permitam-me algumas observações:
#1- Se o seu, ou sua paciente diz que sente dor quando o tempo muda, ACREDITE ! Faz parte da relação terapeuta-paciente estabelecer confiança e empatia. Além disso, se ela está convicta que sente dor quando o tempo muda, você realmente acredita que é capaz de fazê-la mudar de idéia?
#2 – Eu tenho o ligamento cruzado parcialmente rompido e de fato sinto dor quando o tempo muda. Só que não é sempre. Muitas vezes o tempo vira e não sinto nada, e muitas vezes também sinto dor com o tempo estável. Então posso dizer que ao menos no meu caso não é possível estabelecer uma relação entre dor e meteorologia.


Referências:

domingo, 10 de março de 2013

Gelo e Ultrasom, podemos combinar estas duas terapias?


Embora muitas modalidades de tratamento fisioterapêutico ainda não tenham a devida comprovação, devemos sempre que possível buscar práticas que sejam baseadas em evidências. A postagem de hoje apresenta uma discussão sobre a aplicação do ultrasom imediatamente após a Crioterapia.

Inicialmente pensei em classificar esta postagem na seção de “Mitos e Lendas da Fisioterapia”, mas julguei que seria mais interessante abrir um espaço para o debate, afinal de contas “a falta de evidência não é uma evidência”. Gostaria muito que as pessoas contribuíssem com informações sobre o assunto.
Pois bem, vamos lá;

GELO E ULTRA-SOM
Eu aprendi na Faculdade que quando aplicado antes do ultra-som, a crioterapia é capaz de potencializar os efeitos mecânicos do US. Esta idéia se baseia no fato de que se você reduz a temperatura tecidual você aumenta a densidade e assim potencializa os efeitos da micromassagem do ultrasom pulsátil. Como de praxe fiz uma busca no Google e em algumas bases de dados, e fiquei surpreso por não encontrar absolutamente nada sobre ultrasom pulsátil associado ao Gelo.
Pra não dizer que foi uma busca inútil, encontrei dois artigos que investigaram o uso do Gelo antes do Ultrasom, porém estes artigos investigaram a premissa de que a crioterapia antes do US aumentaria o pico de temperatura alcançado nos tecidos.
As informações desta postagem são baseadas nos artigos -  Temperature Changes  in Deep Muscles of Humans During Ice andUltrasound Therapies: An In Vivo Study, publicado em 1995 no JOSPT, e no artigo Temperature Changes During TherapeuticUltrasound in the Precooled Human Gastrocnemius Muscle, publicado no Periódico  Journal os Atthletic Training, em 1994.

Em ambos os artigos os autores se questionam se a premissa de que os efeitos atribuídos ao gelo associado ao US são baseados em princípios científicos ou simples especulações, e discutem os fundamentos teóricos que justificariam o uso de gelo antes do US.
Uma explicação para a popularidade do uso do gelo antes do US pode ter haver com achados relativos a qual meio oferece a melhor transmissão de US, e a possibilidade de que a temperatura do meio influencie o desfecho térmico do tratamento.

Lehman et al (Lehmann  JF,  DeLateur  BJ,  Silverman DR: Selective heating  effects of ultra-sound in human beings. Arch Phys Med Rehabil 47:33 1-339, 1966) relataram que um meio de condução frio (gel de acoplamento resfriado) foi capaz de causar um aumento mais significativo na temperatura tecidual do que um gel aquecido ou de um gel em temperatura ambiente. Estes autores concluíram que a temperatura ideal para o gel de US deveria ser inferior a 21°C. A idéia de que a crioterapia prévia ao US seja similar ao uso de gel de acoplamento resfriado pode ter sido a razão pela qual os fisioterapeutas começaram a usar crioterapia antes do US. Entretanto existe uma enorme diferença entre o gelo antes do US e a aplicação de um meio de acoplamento gelado, pois quando o meio de contato gelado é aplicado sobre a pele, seguida imediatamente da aplicação do US, existe um tempo muito curto para causar vasoconstrição e resfriamento significativo.

É interessante notar que esta é uma referência de 1966, ou seja: Um hipótese equivocada pode ter passando por várias gerações de fisioterapeutas, e que somente 30 anos depois,  em 1994 foi conduzido o primeiro experimento (pelo menos os que eu encontrei) que investigou a efetividade do tratamento ! ! ! ! ÊÊÊÊITA  placebo véio sô !!!

Algumas passagens merecem ser destacadas. Com relação aos fundamentos teóricos da prática :
“... o US precisa de um meio denso para obter seu efeito máximo. De acordo com várias pesquisas,(...) o US é melhor absorvido em tecidos densos que tenham bastante proteínas. Quanto mais denso o meio, melhor a onda de US será absorvida pelos tecidos, possivelmente resultando em maiores efeitos terapêuticos. Esta é basicamente a justificativa para o uso do Gelo antes do US.” (...)“Em geral, a crioterapia estimula respostas fisiológicas como a vasoconstricção e redução do fluxo sanguíneo. Isso não apenas resulta em redução da temperatura local mas, pelo menos em teoria, pode ajudar a aumentar temporariamente a densidade dos tecidos que estão sendo tratados, consequentemente aumentando os efeitos mecânicos dos US.”
Temperature Changes in Deep Muscles of Humans During Ice and Ultrasound Therapies: An In Vivo Study

Estes autores concluíram que o gelo antes do US não oferece nenhuma vantagem adicional ao tratamento, conforme a passagem abaixo da discussão:
“O protocolo do estudo envolveu 5 minutos de aplicação de gelo antes do US. O gelo causou vasoconstricção e consequentemente exigiu mais calor do US para aquecer os tecidos, dilatar os vasos e distribuir o calor. Desta forma, o uso do gelo antes do US pode ter permitido uma queda excessiva da temperatura, impedindo ao invés de potencializar a efetividade termal do US. Um conclusão que pode ser traçada a partir dos resultados é a de que  a uma profundidade de 5cm , o pré-resfriamento de tecidos por 5 minutos antes do US não gera benefícios se o propósito do US é o de criar um aumento significativo na temperatura tecidual. “
Temperature Changes in Deep Muscles of Humans During Ice and Ultrasound Therapies: An In Vivo Study

Os autores Rimington et al. Obtiveram os mesmos resultados, porém são mais agressivos em seus comentários:  
“Se o propósito do tratamento com US é o de aumentar a temperatura do tecido a uma profundidade de 3 cm, o pré-resfriamento (crioterapia) do tecido durante 15 minutos antes de US é um exercício de futilidade. (...) A suposição clínica de que o resfriamento dos tecidos antes de um tratamento com US aumenta a temperatura de pico de tais tecidos não é verdade. A incapacidade do US elevar a temperatura da área até mesmo de volta para a linha de base pré-tratamento,  demonstra os efeitos dominantes do gelo.”
Temperature Changes During Therapeutic Ultrasound in the Precooled Human Gastrocnemius Muscle. 
Muito bem, estes artigos não respondem a minha dúvida inicial que é a influência do Gelo para os efeitos não térmicos do US, mas creio que esta postagem deixa claro duas coisas: #1- Os gringos também usam tratamentos empíricos sem fundamento científico, e
#2- Até podemos aceitar usar um tratamento sem comprovação formal, mas não devemos aceitar tudo o que aprendemos na faculdade simplesmente porque alguém diz : "tenho bons resultados usando este tratamento". 
Como eu disse anteriormente, não encontrei nenhum artigo que fale sobre US pulsado e crioterapia. A hipótese, neste caso seria de que o resfriamento de uma determinada área iria potencializar os efeitos não térmicos obtidos com o US. Pulsado. Creio que esta pergunta permanecerá em aberto, mas espero que alguém se anime com esta pesquisa e, quem sabe, em breve tenhamos a comprovação ou refutação deste tratamento.

Hasta La Vista

quinta-feira, 7 de março de 2013

Pós graduação em Traumato Ortopedia

Olá fisionautas, 
Deixo hoje a minha indicação de curso para quem busca especialização de qualidade em traumato-ortopedia. 
Eu recomendo esta pós, pois tive excelentes recomendações de alunos que estão terminando o curso, posso garantir que o Prof. Dângelo Alexandre é um profissional que se esforça em garantir que este curso tenha um nível de excelência em termos de conteúdo e professores. 
Fica aqui a dica para quem busca uma pós em fisioterapia em 2013



sábado, 23 de fevereiro de 2013

Sugestões de camisas de fisioterapia

Olá Fisionautas,
Agora que o ano começou de verdade tem muita gente alvoroçada esperando a chegada dos calouros. Para algumas pessoas, a chegada de uma turma nova é uma oportunidade imperdível de usar o trote universitário como forma de disfarçar suas frustrações e inseguranças.
Mas  o assunto de hoje não é psicanálise, mas sim algumas sugestões de camisas de fisioterapia. Eu acho sofrível na faculdade a falta de criatividade na hora do pessoal vender camisas. É sempre aquela mesma coisa. A frase "Seu namorado pode até fazer direito, mas ninguém mexe no seu corpo como eu" ou então aquela do coraçãozinho escrito "I love fisioterapia". Andei pesquisando na internet e até criei algumas sugestões de estampas de camisa de fisioterapia um pouco mais interessantes.  
Divirtam-se
















domingo, 17 de fevereiro de 2013

Examinando o Dr. House


Olá Fisionautas,
Quem acompanha a série de TV “Dr. House” sabe que o personagem principal, Gregory House (Hugh Laurie), caminha com a ajuda de uma bengala devido a um infarto sofrido na perna direita que resultou em necrose muscular e muita dor, além de deixá-lo viciado em analgésicos e com um mau humor crônico.
O personagem sempre apóia a bengala no lado direito do corpo, ou seja, no mesmo lado da perna que dói, e aprendemos na faculdade de fisioterapia que um dispositivo de auxílio da marcha deve SEMPRE ser usado na mão oposta ao membro afetado. Mas será que esta verdade absoluta é realmente inquestionável? SEMPRE é sempre mesmo? Será que não há nenhuma exceção? Quem acompanha o blog já deve ter percebido que de vez em quando surto e apresento um comportamento meio esquizofrênico paranóico, duvidando de tudo e de todos. Pois bem, esta postagem é o resultado de mais uma dessas crises. 

Decidi dar um voto de confiança aos roteiristas da série House e ao invés de baixar a lenha reclamando da falta de veracidade do roteiro, fui investigar o que a literatura científica tem a dizer sobre qual o melhor lado para que o Dr. House use a bengala.

COMEÇANDO PELO COMEÇO…Para um(a) fisioterapeuta, a mera informação de que o House sofreu uma necrose muscular na coxa é muito vago, pois não indica qual ou quais músculos foram afetados. Os roteiristas não informam nada sobre força muscular, amplitude de movimento, instabilidade, coordenação e nem em quais movimentos a dor surge (também isso seria querer demais, né?). Desta forma nos faltam informações básicas para estabelecer um diagnóstico cinesiológico. Sem estas informações não há como fazer uma busca específica na literatura. Pelo fato do House apoiar a mão na coxa e não no joelho, decidi me basear em artigos que investigaram o uso de bengala em pacientes com afecções no quadril.
Fiz uma busca no Google para encontrar artigos publicados em revistas especializadas utilizando as palavras-chave: muletas+ipsilateral+contralateral+marcha+pdf, tanto em português quanto inglês.

POR QUE USAR BENGALA ?
Dispositivos de auxílio da marcha tais como muletas e bengalas são indicados para pacientes com dor e fraqueza no membros inferiores. As principais funções destes equipamentos são aumentar a base de apoio, melhorar o equilíbrio e dividir a carga de peso corporal com os membros superiores.
Quando utilizado em um só lado do corpo, uma bengala pode reduzir o estresse sobre o membro inferior contralateral e diminuir o gasto energético necessário para caminhar. No entanto, pessoas com instabilidade no membro inferior optam por utilizar a bengala no mesmo lado do membro afetado, justamente para garantir mais estabilidade durante a fase de apoio da perna afetada. Como eu disse anteriormente, não sei se o problema do House é somente dor/fraqueza ou se envolveria também instabilidade.

PACIENTES COM ARTROSE DE QUADRIL – QUAL O MELHOR LADO PARA SE USAR A BENGALA ?
Encontrei um trabalho em português que apresenta um relato de caso no qual se comparou as características espaço-temporais da marcha de um paciente com osteoartrose no quadril esquerdo quando ele caminhava utilizando a bengala no lado contralateral e sem bengala. Os principais resultados indicam que o comprimento de passo direito e esquerdo, bem como o comprimento total do ciclo, foram superiores com o uso da bengala durante a marcha; os autores concluíram que o uso da bengala contralateral tornava a marcha do indivíduo estudado mais eficiente.

Este artigo é bem simples, ajuda um pouco no nosso raciocínio mas não ajuda muito a encontrar a resposta a nossa dúvida. Primeiro porque se trata do estudo de um único indivíduo com artrose de quadril bastante avançada, e isso por si só impede a generalização dos resultados (nada me garante que outros pacientes com artrose de quadril vão se comportar da mesma forma que o do estudo). Em segundo lugar, foi comparada somente a marcha sem bengala e com bengala contralateral. No nosso caso, desejamos saber se a bengala usada contralateral a perna afetada é mais eficiente do que a usada no mesmo lado. 
Pra ser bem cri-cri do ponto de vista da metodologia científica, o que podemos tirar de útil deste estudo é que o uso da bengala resultou em melhora dos parâmetros temporo-espaciais da marcha quando comparado a marcha sem bengala, e que TALVEZ isto aconteça em outras pessoas com artrose unilateral de quadril. 

Clique no link acima para ser direcionado para o artigo

PACIENTES COM PRÓTESE DE QUADRIL – QUAL O MELHOR LADO PARA SE USAR A BENGALA ?
Este trabalho focou na avaliação da atividade muscular dos abdutores de quadril utilizando eletromiografia de superfície e mensuração da força aplicada sobre a bengala. Foram avaliadas 24 pessoas com prótese unilateral de quadril enquanto caminhavam [1] sem bengala [2] com a bengala no mesmo lado da prótese, [3] com a bengala no lado oposto a prótese e [4] novamente contralateral a prótese, porém empurrando a bengala pra baixo com “força próxima do máximo”
Este estudo foi conduzido com pessoas com artroplastia de quadril unilateral. Quando instruídos a deambular utilizando a bengala de uma forma confortável, foi gerada em média uma força correspondente a 10% do peso corporal (isto é: uma pessoa com 80Kg descarregou 72Kg sobre a perna afetada). Com relação a atividade muscular, o EMG evidenciou uma redução de 31% na ativação dos músculos abdutores de quadril quando comparado a deambulação sem bengala. 

Quando instruídos a deambular empurrando a bengala pra baixo com “força próxima do máximo”, a redução da descarga de peso chegou a 19,8% do peso corporal. Este esforço mais árduo produziu, em média, uma redução de 42,3% na EMG dos músculos abdutores de quadril, mais uma vez comparado a deambulação sem bengala.
Este trabalho é bem legal, pois tem um grupo controle (marcha sem bengala) e 3 situações experimentais (com bengala do mesmo lado, com bengala contralateral e bengala contralateral aplicando força máxima sobre a bengala). 
Os resultados nos levam a uma conclusão interessante: a de que não é necessariamente errado usar uma bengala no mesmo lado do membro afetado, pois mesmo apoiada do mesmo lado, a bengala é capaz de aliviar a descarga de peso e diminuir a sobrecarga sobre os abdutores. Porém quando apoiada no lado contralateral ao quadril protético, a efetividade na redução da descarga  e na redução da demanda de força sobre os abdutores de quadril é muito maior.

Esta conclusão é corroborada pelo trabalho “ImmediateEffects of Contralateral and Ipsilateral Cane Use On Normal Adult Gait”, no qual foram investigados o pico de força vertical, e variáveis espaço-temporais da marcha de indivíduos hígidos, isto é, sem problemas nos quadris, enquanto utilizavam bengala do mesmo lado e contralateralmente.  Neste estudo os autores concluíram que as duas formas de levar a bengala reduzem as forças sobre o membro inferior, porém a contralateral é mais eficiente.
Há ainda um outro trabalho interessante que concluiu que em pacientes com artrose de joelho o uso de muletas no membro contralateral também é preferível ao uso ipsilateral só que com um agravante: Os resultados deste estudo sugerem que em indivíduos com artrose de joelho, o uso de bengala ipsilateral pode ser mais prejudicial do que não usar bengala alguma. Isso porque a bengala no mesmo lado da lesão aumentar as cargas angulares sobre o joelho, o que pode acelerar a degeneração.

O QUE APRENDEMOS COM ISSO ?
Bem, a primeira coisa que posso concluir é que parece que eu não tenho nada melhor pra fazer no meu tempo livre do que ficar vendo TV e arrumando sarna pra me coçar. 

A segunda coisa que aprendi foi que com relação ao House, me parece que os roteiristas não estão tão errados assim. Dependendo do problema e da preferência (chatice) do House, a bengala usada do mesmo lado pode sim aliviar a sobrecarga e ajudá-lo a andar, muito embora usá-la no lado contralateral seja muito mais eficiente.


Pois bem pessoal, é isso aí. 

Já que estamos no carnaval e o assunto é bengala, gostaria de terminar a postagem com uma reflexão.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Fisiotoons, RPG II

Olá fisionautas,
Agora que acabou o carnaval podemos considerar que o ano de 2013 começou de verdade, e pra começar bem deixo mais uma tirinha de quadrinhos inspirada na fisioterapia.
Feliz ano novo, feliz 2013!!

Gostou? Dá uma olhada nos outros fisiotoons clicando nos links abaixo.
Fisiotoons - Os Pilates do Caribe
Fisiotoons - a Lei de Murphy e a Fisioterapia
Fisiotoons - RPG I
Fisiotoons - Sistema Vestibular



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Exercícios para o manejo da fadiga relacionada ao câncer - Ligando evidência e prática

Olá Fisionautas, 
Hoje, dia 4 de fevereiro é o dia mundial de luta contra o câncer e em homenagem a esta luta deixo a tradução livre de mais um artigo da série LEAP (Linking Evidence and Practice- Ligando Evidência e Prática). Este trabalho foi publicado em 2011 na revista Physical Therapy e fala sobre a prática de exercícios físicos no combate a fadiga relacionada ao câncer. 
Quem quiser baixar o artigo original em inglês basta acessar este link >>>>AQUI<<<<. 

Se você gostou da abordagem LEAP, talvez queira ler a tradução de outros artigos da série:
Reabilitação Pulmonar Após exacerbação Aguda da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica.- ligando evidência e prática

EXERCÍCIOS PARA O MANEJO DA FADIGA RELACIONADA AO CÂNCER

   A fadiga relacionada ao câncer (FRC) afeta entre 70% a 100% dos pacientes durante o curso da doença ou do seu tratamento e resulta em restrições nas atividades do dia a dia. [2-3]. Embora a causa da FRC ainda seja desconhecida [4-7], existem diretrizes o seu tratamento. De acordo com as recomendações do National Comprehensive Cancer Network (NCCN), a FRC é definida como um sintoma persistente, um senso subjetivo de cansaço físico, emocional e cognitivo ou exaustão relacionada ao câncer ou ao seu tratamento que não seja proporcional à atividade realizada recentemente a qual poderia interferir com a capacidade funcional usual do paciente.  A NCCN , recomenda que se deve inicialmente tratar quaisquer condições identificáveis e reversíveis que possam colaborar para o desenvolvimento de fadiga, tais como hipotireoidismo, depressão,  anemia ou insônia[8]. Se estes tratamentos não funcionarem, ou se nenhum fator potencialmente causador de fadiga tenha sido identificado, as diretrizes sugerem uma variedade de abordagens possíveis.

   Entre as abordagens não farmacológicas recomendadas pela NCCN está o aumento da atividade física. O combate ao sedentarismo e a prática de exercícios físicos regulares podem reduzir tanto os efeitos físicos quanto psicológicos do stress relacionado com tratamentos de câncer, podem também melhorar o humor e reduzir a ansiedade e o medo em pacientes [9]. Recentemente, o American College of Sports Medicine (ACSM) publicou diretrizes de exercícios para as pessoas que sobreviveram ao câncer. Estas diretrizes afirmam que o exercício é seguro e é capaz de melhorar o desempenho físico, a qualidade de vida e reduzir o sintoma de fadiga [9]

   Para determinar o efeito do exercício na fadiga relacionada ao câncer, os autores Cramp e Daniel realizaram uma revisão sistemática, que foi publicado no The Cochrane Database of Systematic Reviews em 2009 [10]. Esta revisão procurou determinar o efeito de exercícios em pacientes com vários tipos e estágios de câncer e com vários esquemas de tratamento, durante e também após o tratamento. A revisão incluiu estudos randomizados controlados com participantes de qualquer idade que tiveram qualquer tipo de câncer e qualquer tipo de tratamento. Para serem incluídos, os estudos deveriam investigar o efeito de qualquer tipo de exercício realizado em qualquer ambiente (hospital, ambulatório ou domiciliar) e a sua comparação com nenhum exercício, tratamento usual, ou tratamentos alternativos. Os estudos poderiam relatar desfechos em várias formas, incluindo ferramentas padronizadas para avaliação da fadiga, capacidade aeróbica, qualidade de vida, ansiedade e depressão.

Leve uma lição para casa
   A revisão por Cramp e Daniel [10] identificaram o efeito benefício de exercício na redução da FRC. Os benefícios foram vistos tanto em programas de exercícios supervisionados quanto não-supervisionados, realizados durante ou mesmo após o tratamento do câncer. Vários modos, intensidades, freqüências e durações de exercício parecem ser eficazes, no entanto, não há evidências suficientes para orientar a escolha de um programa de exercícios específicos.

Caso # 5 Exercício e fadiga relacionada ao câncer

Um programa de exercícios físicos pode ajudar esta paciente?
   A Sra. Hunter é uma professora de educação física aposentada de 65anos de idade, que buscou atendimento médico devido tosse crônica e perda de 15 quilos de peso ao longo de 1 ano.
A Tomografia Computadorizada de tórax revelou uma massa de 3,3 cm no lobo superior do pulmão esquerdo, e a biópsia confirmou um carcinoma de pulmão de células não pequenas. Ao longo de um período de 7 meses, a paciente foi submetida a uma lobectomia seguida por quimio e radioterapia. Um ano após a conclusão de seu tratamento de câncer, a Sra. Hunter queixou-se ao médico sobre dispnéia de esforço e fadiga. Sua taxa de fadiga de acordo com a escala visual analógica (EVA) foi de 60 de uma pontuação máxima de 100.

Como os médicos aplicam os resultados da revisão sistemática Cochrane ao caso da Sra. Hunter?
Foram realizados exames clínicos, porém não foi possível identificar alterações fisiológicas que explicassem a fadiga e a dispnéia da paciente. Desta forma, determinou-se que a dispneia de esforço era provavelmente causada por descondicionamento físico.

Foi elaborada uma pergunta utilizando o formato PICO (Paciente, Intervenção, Comparação e resultado (Outcome)) para guiar a busca de evidências na literatura: Em uma mulher de 65 anos de idade, com câncer de pulmão, tratada com lobectomia, quimioterapia e radioterapia, um programa de exercícios (em comparação com exercício nenhum) seria benéfico para reduzir a fadiga?

A equipe que acompanha a Sra Hunter determinou que o artigo de revisão sistemática de Cramp e Daniel [10] forneceu informações relevantes que lhes permitiu responder a pergunta elaborada.
 A maioria dos estudos na revisão sistemática incluiu apenas as pessoas com câncer de mama, e nenhum dos estudos incluiu apenas as pessoas com câncer de pulmão, no entanto vários dos estudos utilizados na revisão sistemática incluíram participantes com vários tipos de câncer. Os resultados dos participantes que receberam exercício foram mais freqüentemente comparados a não intervenção ou "cuidados habituais".

Com base na avaliação da revisão sistemática a equipe recomendou um programa de exercícios. Ela concordou com a recomendação e iniciou um programa Individualizado de exercícios supervisionados em sessões de 60 minutos, duas vezes por semana, durante 10 semanas. Cada sessão incluiu um período de aquecimento de 5-10 minutos em bicicleta estacionária ou esteira ergométrica com uma intensidade de 10 a 12 na Avaliação de Borg, mantendo uma saturação de oxigênio superior a 90%. O aquecimento foi seguido de um circuito de musculação direcionado aos principais músculos dos membros superiores e inferiores. Exercícios foram iniciados com uma série de 8 a 15 repetições e progrediram até um máximo de 3 séries de 15 repetições, sempre com base na tolerância da Sra. Hunter ao exercício. As sessões eram encerradas com exercícios de alongamento de todos os grandes grupos musculares. O peso total levantado em todos os grupos musculares durante todo o programa foi registrado.

Os resultados da intervenção coincidem com os sugeridos pela revisão sistemática?
A Sra. Hunter completou 19 de 20 sessões de exercícios. Sua fadiga foi reduzida no final do programa a uma pontuação de 22 em 100 na EVA. A magnitude da redução da Sra. Hunter em fadiga (38 pontos), pode ser considerada clinicamente importante. Além disso, ela não relatou efeitos adversos relacionados ao programa de exercícios.

Olha aí a Sra Hunter alegre e faceira liberando serotonina 
em sua caminhada matinal na esteira 

Você pode aplicar os resultados da revisão sistemática para seus pacientes?
Os resultados desta revisão aplicam-se a pacientes adultos com diversos tipos de câncer que recebem intervenção de exercício durante ou após tratamentos de câncer. Os resultados se aplicam tanto a pacientes em programas de exercícios supervisionados quanto domiciliares.

O que pode ser aconselhado a partir dos resultados desta revisão sistemática?
Os pacientes que se encaixam na descrição acima são susceptíveis de beneficiar de um programa de exercícios que é de aproximadamente 12 semanas. Da mesma forma que o programa de exercícios da Sra. Hunter, as recentes orientações do ACSM sugerem que prescrições de exercício devem ser individualizadas, considerando as precauções associadas ao tipo específico de câncer, o nível de condicionamento físico, comorbidades e resposta ao tratamento. Embora a Sra Hunter tenha aderido a um programa de exercícios após o término do tratamento de câncer, a revisão sistemática demostra que os pacientes que completaram programas de exercícios durante ou após seus tratamentos de câncer experimentaram redução da fadiga e melhora da qualidade de vida.


REFERÊNCIAS

1       The Cochrane Library. Available at: http://www.thecochranelibrary.com/view/0/index.html. Accessed February 7, 2011.  
2       Mock V. Fatigue management: evidence and guidelines for practice.  Cancer. 2001;92(6 suppl):1699–1707.
3     Curt GA, Breitbart W, Cella D, et al. Impact of cancer-related fatigue on the lives of patients: new findings from the Fatigue Coalition. Oncologist. 2000;5:353–360.
4    Flechtner H, Bottomley A. Fatigue assessment in cancer clinical trials. Expert Rev Pharmacoecon Outcomes Res. 2002;2:67–76.
5    Lucia A, Earnest C, Pérez M. Cancer-related fatigue: can exercise physiology assist oncologists?  Lancet Oncol. 2003;4:616–625.
6     Wagner LI, Cella D. Fatigue and cancer: causes, prevalence and treatment approaches. Br J Cancer. 2004;91:822–828.
7     Mustian KM, Morrow GR, Carroll JK, et al. Integrative nonpharmacologic behavioral interventions for the management of cancer-related fatigue.  Oncologist. 2007;12(suppl 1):52–67.
8 Clinical Practice Guidelines in Oncology. Cancer-related fatigue (v.1.2010).2010. http://www.nccn.org/professionals/physician_gls/PDF/fatigue.pdf. Accessed August 10, 2010.
9   Schmitz KH, Courneya KS, Matthews C, et al; American College of Sports Medicine. American College of Sports Medicine roundtable on exercise guidelines for cancer survivors. Med Sci Sports Exerc. 2010;42:1409–1426.
10    Cramp F, Daniel J. Exercise for the management of cancer-related fatigue in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2009;(3):CD006145.