Ebooks

INFORMAÇÃO IMPORTANTE
Infelizmente o 4shared bloqueou o acesso a conta onde eu armazenava os e-books (aparentemente tem algo haver com direitos autorais). Assim que tiver um novo site para armazenamento enviarei os links.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Mitos e Lendas da Fisioterapia. - Andar na areia cura pé chato ?

Provavelmente você já deve ter ouvido falar que crianças com pé chato devem caminhar descalças na areia fofa da praia para formar o arco do pé.
Muita gente acredita que o pé plano é resultado da fraqueza dos músculos intrínsecos dos pés e que estimular as crianças a caminhar na areia seria uma maneira lúdica de fortalecer estes músculos e formar o arco plantar.
Mas será que andar na areia fofa realmente ajuda a formar o arco plantar? Ou será que essa é só uma grande bobagem que foi repetida tantas vezes que passou a ser aceita como verdade?
Minha estratégia para responder esta dúvida, foi a de responder 3 perguntas primordiais:
[1] Como se dá a formação do arco plantar longitudinal dos pés ao longo da infância [Na minha opinião é preciso entender o normal antes de entender o patológico.]
[2] Quais estruturas anatômicas sustentam o arco plantar? [Estamos partindo do pressuposto que os músculos fazem tudo sozinhos... mas será verdade?]
[3] Existe algum estudo clínico que investigou os efeitos do fortalecimento dos músculos do pé em crianças com pé plano?
RESULTADOS
Pergunta [1] => Como se forma o arco plantar
Todas as crianças nascem com os pés planos. Na primeira infância os pés possuem um coxim de gordura sob a sola o qual diminui gradualmente com o passar do tempo. É justamente este coxim que faz os pés parecerem chatos. O arco longitudinal do pé não está presente ao nascimento e seu desenvolvimento é mais evidentemente a partir dos 5 anos de idade. Este é um processo que ocorre ao longo do crescimento e não é afetado pela presença ou ausência de apoio do arco externo (ou seja: não adianta comprar botinha ortopé).
Portanto, após os 6 anos de idade, muitas das crianças cujos pais identificaram o pé-chato, irão formar o arco longitudinal medial do pé como consequência do desenvolvimento normal do sistema musculoesquelético.
Um  jeito fácil de comprovar que a maioria das crianças pequenas tendem ater o pé chato é ir a uma festa infantil dessas que são feitas em mega salões de festa. Nestes aniversários as crianças tendem a correr descalças pra cima e pra baixo. Você poderá constatar que existe uma epidemia de pés-chatos!!!

Pergunta [2] => Quais estruturas anatômicas mantém a forma do arco plantar.
A estrutura do arco longitudonal medial dos pés é formada por ossos, ligamentos e músculos, porém, os principais responsáveis por manter o arco longitudinal são a estrutura óssea e os ligamentos. Um estudo da eletromiografia dos músculos dos pés de indivíduos em postura estática, demonstrou que os músculos intrínsecos mostram uma pequena atividade somente quando o corpo é submetido a sobrecarga (peso corporal muito elevado ou ao segurar pesos).
Desta forma, podemos deduzir que mesmo a fraqueza dos músculos do pé não causaria o desabamento do arco plantar.

Pergunta [3] => Será que existem ensaios clínicos sobre o fortalecimento muscular para formar o arco plantar em crianças.
Infelizmente não encontrei nenhuma pesquisa e nem referências a trabalhos que tenham investigado os efeitos do fortalecimento muscular sobre a formação do arco plantar. As pesquisas clínicas existentes são sobre o tratamento do chamado “pé plano sintomático”, ou seja: pessoas com pé plano e que sentem dor.

Algumas considerações importantes:
Nos artigos que eu pesquisei para responder a estas´perguntas, encontrei referências a 2 trabalhos sobre a incidência de pé plano entre crianças que usam sapatos e as que andam descalças.
Os pesquisadores Sim-Fook e Hodgson, relataram uma maior incidência de pés planos entre as crianças chinesas que usavam calçados, quando comparados as que sempre andavam descalças. Curiosamente, muitas das crianças com pés planos do grupo que usava calçados apresentavam também dores nos pés e uma maior rigidez articular no segmento [Sim-Fook L, Hodgson AR (1958) A comparison of foot forms among the non-shoe and shoe-wearing Chinese population. J Bone Joint Surg Am 40:1058–1062]
Em um trabalho mais recente, Rao e Joseph, em 1992, observaram resultados similares em crianças indianas que usavam calçados fechados comparadas às que não usavam calçados ou que usavam chinelos.
Eu considero estas observações particularmente interessantes, pois se lembrarmos que o sistema muculoesquelético em crescimento se adapta às tensões e exigências a que é submetido ao longo do crescimento, pode-se interpretar estes achados como indicando que o uso de calçados durante a infância pode ter um efeito negativo sobre a arquitetura dos pés, favorecendo o pé plano sintomático, mais rígido e doloroso. – – em outras palavras: Apesar de caminhar descalço não formar o arco longitudinal do pé, crianças precisam andar descalças sim, como forma de  manter o pé flexível (mesmo plano) evitando que o pé fique rígido e doloroso.
CONCLUSÃO
A literatura pesquisada sugere que o arco plantar irá se formar naturalmente nos primeiros 10 anos de vida. Portanto muitos dos casos que foram "curados" caminhando na areia fofa não foram resultado de exercícios na areia fofa, mas sim a mera observação do desenvolvimento normal da arquitetura dos pés.
Fortalecer os músculos dos pés caminhando na areia não modifica o arco plantar, pois o arco é formado principalmente pela arquitetura óssea, ligamentar e articular do pé. E não existem ensaios clínicos que tenham investigado os efeitos do fortalecimento sobre a estética dos pés.

Desta forma, considero o Mito de que caminhar na areia fofa molda o arco plantar Detonado!

REFERÊNCIAS. Basta clicar para ser direcionado a página do artigo
Flatfoot in Children: How to Approach?
The Pediatric Foot

Pes Cavus and Pes Planus : Analyses and Treatment
Mechanics and control of the flat versus normal foot during the stance phase of walking

Non-surgical interventions for paediatric pes planus (Review)
The Role of Muscles in Arch Support of the Foot AN ELECTROMYOGRAPHIC STUDY